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Daniel Barbosa

Outras quadrilhas

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PUBLICADO EM 02/03/18 - 03h00

Ataliba não toma o café da manhã em casa, prefere fazê-lo na padaria da esquina, logo quando sai para o trabalho. Cumpre essa rotina desde que perdeu a mulher, vítima de um câncer fulminante, há oito anos. Não teve filhos, mora sozinho, não costuma sair muito, a situação financeira é estável, o semblante, invariavelmente melancólico, gosta de café sem açúcar e pão com manteiga, queijo e ovo frito com gema dura. São coisas que Dalva sabe ou intui. Há cinco anos, desde que trabalha na padaria da esquina, ela serve o café da manhã de Ataliba e nutre por ele um sentimento que passou de simpatia a paixão muito rapidamente, logo nos primeiros contatos. Nunca teve coragem de se expressar, limita-se a atender, sempre com sorriso contido e brilho nos olhos, aquele senhor que, eventualmente, enquanto faz o desjejum, puxa assunto, faz perguntas, fala um pouco de sua própria vida e sequer desconfia que ela o ama desmedidamente.

Mãe solteira, 30 anos, moradora da Vila Nossa Senhora de Fátima, no Aglomerado da Serra, Dalva não sabe dizer para si mesma exatamente quando ou como ou porque se apaixonou por Ataliba. Obviamente que gostaria de ser correspondida, mas para ao menos pensar nessa hipótese teria que declarar seu amor, o que não tem coragem de fazer. De qualquer maneira, o amistoso encontro cotidiano, que dura não mais que dez minutos, já é o bastante para que Dalva acorde bem disposta às seis da manhã e vá trabalhar de bom grado, a despeito dos parcos trocados que recebe ao final do mês e da rispidez com que a trata a gerente, Magda, que chegou a tal condição depois de 11 anos de sincera dedicação ao trabalho na padaria da esquina. Entrou como atendente, depois foi caixa, depois responsável pelo estoque, depois gerente.

Assim como Ataliba, Magda também mora sozinha e gosta de café sem açúcar, que faz em casa, antes de sair para trabalhar. Tem 41 anos, nunca se casou e nunca teve filhos, também sai pouco de casa e, talvez por esse motivo, praticamente não tem o que se possa chamar de uma vida social. Magda procura manter uma postura austera com os funcionários da padaria e não hesita em impor sua autoridade. Se é particularmente exigente ou, vá lá, ríspida com Dalva, não é porque tenha qualquer tipo de implicância contra ela. Pelo contrário. O tratamento duro que dispensa à funcionária é, na verdade, uma defesa contra o amor, também desmedido, que sente por ela. Ataliba por falta de interesse, Dalva porque é semi-analfabeta, Magda porque gosta de Sidney Sheldon, nenhum dos três nunca leu Drummond. 

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