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Daniel Barbosa

Relato tardio e vago de viagem

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PUBLICADO EM 06/06/18 - 03h00

O reflexo da lua cheia na imensidão de areia branca conferia àquele fim de noite um aspecto de irrealidade, potencializado pela brisa suave que fazia farfalhar as moitas de arbustos espalhadas aqui e acolá pelo caminho que o pequeno caminhão adaptado em jardineira percorria lentamente. Dos poucos veículos, além de bugues e tratores, capazes de se movimentar no areal, ele era aberto atrás e nas laterais, e tinha os bancos de madeira de encosto baixo dispostos um atrás do outro, com pouquíssimo espaço nos intervalos, o que tornava o transporte assaz desconfortável, ainda mais para quem carregava sobre o colo uma bagagem que, se não chegava a ser volumosa em demasia, tampouco era modesta.

Cerca de uma hora depois, no início da madrugada, a jardineira chegava a seu destino, onde um grupo considerável de jovens, crianças e uns poucos adultos nos aguardava com indisfarçável ansiedade, traduzida na forma atabalhoada com que se acotovelavam na tentativa de abordar os cerca de dez ou 12 turistas recém-chegados. Um menino, que aparentava ter não mais que dez anos chegou, antes mesmo que eu descesse da jardineira, listando opções de pousadas a preços módicos. Com uma indicação dada por um amigo trazida a tiracolo, perguntei se ele conhecia uma cujo dono se chamava Dumaresque, ao que o garoto assentiu. Andamos uns quinhentos metros até a pousada, que não tinha nome, não tinha placa na fachada e praticamente, como a “Casa” do Vinicius, não tinha parede, não tinha teto, não tinha nada. Era, com efeito, uma construção de uma simplicidade franciscana. O quarto a que o tal Dumaresque me conduziu se resumia a um cubículo com uma cama, uma mesinha de cabeceira e uma portinha que dava acesso à privada. Tudo bem melancólico, mas, com o tempo que eu previa ficar, era o que o dinheiro que eu tinha permitia pagar.

Apesar de ter ido dormir tarde, acordei cedo na manhã seguinte, saí perambulando pelo vilarejo, sentindo sob os pés a mesma areia branca e fina que parecia se estender infinitamente por todos os lados, tendo como único limite o mar, distante cerca de 800 metros da pousada que me abrigava. Tomei um café e comi um pão com queijo quente em uma mercearia fajuta e rumei para o mar. Seguia num misto de torpor, talvez pelas poucas horas de sono, e deslumbramento, que se agigantou logo que cheguei à praia e vi, a minha esquerda, uma gigantesca duna, a primeira de uma sequência a perder de vista, e à direita, formações rochosas que também pareciam se estender por um longo trecho, banhadas de leve pelo mar, que, a minha frente, seguia raso, passando pouco da altura dos tornozelos, até bem mais adiante.

Me sentei em uma cadeira de um bar que ainda estava fechado me sentindo dentro de um cenário surrealista. A chegada de um rebanho de carneiros que se instalou na areia justo na minha frente aumentou essa percepção. E tudo foi se tornando cada vez mais extravagante. Bob Marley e Alceu Valença é que costumam ser a trilha sonora onipresente nas praias descoladas do litoral brasileiro, mas, de repente, me chegou aos ouvidos, vindo não sei de onde, um Black Sabbath, que, estranhamente, me soou em perfeita harmonia com o ambiente. Não sei quanto tempo fiquei ali sentado, mas aquele momento perdura com viço na memória.

Texto originalmente publicado em 21/10/2016

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