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Fernando Fabbrini

A batalha de Komikilon

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PUBLICADO EM 09/08/18 - 03h00

Estava degustando em paz meu sagrado arroz com feijão no comida a quilo quando ele invadiu o recinto. Era um menino, uns 8 anos, em disparada, seguido às custas pela senhora sua avó. Chegavam para o almoço; momento de raro convívio familiar. Ou, quem sabe, um socorro providencial à mãe do capetinha, exausta ao final das férias e sonhando conceder-se um mísero intervalo de paz para fazer as unhas.

O pequeno atraiu atenções imediatas graças a sua desenvoltura social. Gritava, trombava nas pessoas, furava as filas, mexia em tudo; quase derrubou as panelas fumegantes. Exibia aquilo que os educadores modernos denominam como “hiperatividade”. E que os antigos, em sua sabedoria, chamavam de “falta de limites, de chinelo na bunda”. (Ops! Esqueci! Hoje não podemos mais dizer “palmada” nem “autoridade”, fica logo “autoritário”. Desculpem-me pela alusão inadvertida e politicamente incorreta). Ansiosa, a vovó correu os olhos pelo salão:

– Meu querido, você quer sentar nesta mesa bonitinha ou naquela mesinha legal?

Em dúvida, o monstrinho testava a estabilidade das mesas com esbarrões propositais, certeiros. Prudentes, todos seguravam bolsas, copos e garrafas. O menino começara a testar também a paciência dos comensais.

– Amorzinho, você quer a cadeirinha de gente grande ou essa pequenininha?

O amorzinho assentou-se, sacou do bolso um celular com joguinhos e iniciou a batalha contra os mutantes do planeta Komikilon. A trilha sonora “Pling! Zóin! Nhec-nhec! Ton-ton!” alcançava uma centena de decibéis. Em meio ao barulhão, a vovó insistiu:

– Querido, vou fazer seu pratinho. Você quer batatinha frita ou macarrãozinho?

Nenhuma resposta. Após liquidar o Dragão Escarlate, ele se concentrava agora na mudança de fase. A avó, aproveitando-se do momento estratégico, foi ao bufê e serviu-se. Voltou correndo.

– Olha, meu bem! A vovó botou milho, você adora! Vamos papar?

Alertado ao ouvir o verbo “papar” dito a um guerreiro daquele porte e idade, levei automaticamente a mão à cintura. Minha pistola de raios estava pronta, caso um Papão Sanguinário de Komikilon escapasse do jogo e atacasse alguém.

O monstrinho não se deixou perturbar pelas súplicas da vovó. Abrira o terceiro portal dos Ogros Defensores e invadira a fortaleza do cruel Malévolus. A vovó, usando a colher como um aríete, tentou igualmente invadir o portal bucal do neto.

– Não quero! – berrou ele.

– Mas a vovó foi buscar pra você! Olha que delícia! Só um pouquinho, come!

– Não quero! – repetiu.

– Então, a batatinha frita! Só uma!

O monstrinho abriu a mandíbula, sem tirar os olhos da tela. Com os pés inquietos chutava a mesa. Incessantes “Pling! Zóin! Nhec-nhec! Ton-ton!” davam ritmo ao embate. Nesse ponto da epopeia, percebi que o sol – o nosso velho e bom sol, e não aquele sol azul de Komikilon – batia em cheio sobre a mesa deles. Aí veio a pergunta inacreditável da vovó:

– Você está com calor? Quer mudar pra aquela mesa mais fresquinha?

Agarrado ao celular e com um fragmento de batata frita ainda pendendo dos lábios, o guerreiro virtual deixou-se arrastar para a mesa ao lado. Foi nesse instante que o milagre ocorreu. No lugar do Papão Sanguinário, foi o Avatar Prateado que saltou da tela do celular, materializando-se. Grande, brilhante, poderoso, quase assustador. Zás! Postou-se junto à mesa deles, mãos na cintura. Com voz cavernosa e metálica, disse ao garoto:

– Menino muito chato. Menino cheio de frescuras. Menino abusando da vovó!

Apavorado, o monstrinho abraçou-se à senhora, pedindo colo:

– Menino precisa comer de tudo. Arroz. Feijão. Tomate. Macarrão. Menino não pode brincar com celular enquanto come. Menino não pode encher o saco dos outros. Vovó também não pode mimar assim o netinho. Entendido?

O garoto fez que sim; uma, duas vezes, balançando a cabecinha. Desligou o celular. Pegou o garfo – sozinho, sem ajuda, vejam só – e pôs-se a comer, bem comportado. A vovó suspirou, aliviada. Pessoas que almoçavam bateram palmas, inclusive eu:

– Muito bem! Viva o Avatar Prateado! Viva!

O Avatar Prateado levou a mão à testa, em despedida. Mais uma missão cumprida. Alguns ainda viram-no pagando a conta com cartão de débito e sumindo num rastro de luz.

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