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Fernando Fabbrini

Antes do altar

Sempre é prudente ponderar, escutar a voz da experiência, estar atento às observações de quem já passou pelo altar e colecionou dezenas de desabafos de amigos

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Hélvio
PUBLICADO EM 10/01/19 - 03h00

Caríssimo leitor, homem enamorado: ouça os meus conselhos. Mesmo se você estiver apaixonadíssimo pela moça; se basta ela estalar os dedos pra você se achegar dócil e carinhoso feito um poodle, perigo! Pare e reflita bastante no limiar do passo decisivo. Sempre é prudente ponderar, escutar a voz da experiência, estar atento às observações de quem já passou pelo altar e colecionou dezenas de desabafos de amigos.

Aliás, penso que é chegada a hora de lutar por mais solidariedade entre nós. As mulheres já nascem com isso: são espécies perfeitas individualmente e terríveis quando agem em grupos. Portanto, cautela, muita cautela: vivemos tempos novos e difíceis para os machos; já somos quase descartáveis. Na escala das feministas do irado grupo Femen ou daquelas que tocam tambor peladas estamos abaixo dos protozoários.

Primeiro alerta: nunca se case com uma dentista. Lógico: o que esperar de uma mulher que está habituada a ficar sempre por cima, falando o tempo todo, enquanto você, imobilizado e vulnerável, só pode emitir grunhidos quando sentir dor? E se a amada for uma advogada? Nem pense em casamento. Você será massacrado com argumentação afinada toda vez que ela intimá-lo a discutir a relação – sem direito à réplica ou a recurso em instância superior.

Jamais se case com uma arquiteta. Estudos comprovam que as arquitetas são mulheres sofisticadas, charmosas, rainhas do bom gosto. Seriam esposas fantásticas – não fosse a disposição malévola para mudar tudo de lugar subitamente. Você está relaxado na poltrona, na santa paz, assistindo ao futebol. Distraído, não percebe que sua mulher folheia, frenética e compenetrada, um exemplar do “Architectural Digest”. Ai, ai, ai! É sinal de borrasca se aproximando. Pode apostar: de repente, ela vai atirar a revista na cesta, suspirar e dizer aquela frase tão temida:

– Amor, acho que podemos dar uma melhorada nesta sala.

Pronto: não só a sala, como também sua vida inteira vai virar um acampamento de sem-terra com lona preta durante dois meses, no mínimo. Enquanto ela briga com o pintor que não acerta o tom verde-gafanhoto exato, você tenta, desesperado, encontrar suas bermudas velhas no meio de cinco pedreiros transitando pela copa de manhã cedo, banheiros interditados, marmitas invasoras sobre o fogão e outros cenários do caos doméstico.

As executivas? Descarte-as sem dó. Estas costumam encarar o casamento como uma associação com fins lucrativos. O objetivo é priorizar a gestão de um projeto de longo prazo em que o carinho é disponibilizado para agregar valor e fidelizar o target, avaliando mensalmente os retornos e contrapartidas. Fuja também das intelectuais, professoras acadêmicas, sociólogas. Um dia, resolvem escrever a tese “Um olhar sobre o mito George Clooney e sua influência no imaginário feminino”, o bonitão aceita conceder uma entrevista exclusiva e... danou-se.

Outro desastre são as atletas – nadadoras, corredoras, ciclistas e similares. Case-se com uma e dê adeus às calmas manhãs de domingo bebendo sua cervejinha. Ela vai se aproximar de você, animadíssima, fazendo alongamentos. Lançará um olhar misto de censura, compaixão e desprezo e dirá:

– Vai ficar aí parado?

Ai de você! Claro que não vai ficar ali parado; tire logo a bunda da poltrona porque terá início mais uma sessão de suplícios – seja na academia ao lado, na pracinha em frente ou na imensa pista da avenida, cheia de caras suados como você.

E, finalmente – por uma questão de justiça –, se você for mulher, jamais se case com um homem que vive de escrever. São geralmente indivíduos desocupados, preguiçosos, maledicentes. E o mais grave: quando não encontram algo que os inspire, inventam logo um jeito de falar mal das amigas – especialmente dentistas, arquitetas, executivas, advogadas, professoras, nadadoras, corredoras, ciclistas e similares.

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