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Fernando Fabbrini

Hidrômetros fofinhos

Nós, meros cronistas, por mais que suemos em bicas sobre o teclado, estamos a anos-luz da compreensão cabal da mecânica dos fluidos; dos mistérios insondáveis da hidrostática e da hidrodinâmica

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PUBLICADO EM 20/09/18 - 03h00

Nós, meros cronistas, por mais que suemos em bicas sobre o teclado, estamos a anos-luz da compreensão cabal da mecânica dos fluidos; dos mistérios insondáveis da hidrostática e da hidrodinâmica.

É frustrante: cerca de 70% de nosso organismo é água, indispensável às células. Mesmo assim, tão íntima e cotidiana, a água nos prega peças quando menos esperamos. Sobretudo se sua distribuição depender exclusivamente de uma empresa de dimensões – digamos assim – oceânicas.

Tal como vocês, recebo em casa milhares de litros do precioso líquido. Atento à carência alarmante da água no planeta – ameaçando ursos polares, aborígenes australianos e couves de meu quintal –, consumo-a com atenção, parcimônia e responsabilidade. Nada de esguichos levianos sobre calçadas ou automóveis. Jamais banhos demorados e cantorias de óperas, fazendo escoar pelo ralo nosso magro orçamento mensal.

Mesmo assim, meses atrás recebi da companhia administradora uma conta astronômica. Valei-me Poseidon, Iara, sereias, efidríades e náiades! Onde foi que errei? Anexado à conta, um aviso alarmante: meu consumo estava exagerado, muito acima do usual.

De imediato, iniciei uma extenuante jornada aérea, terrestre e subterrânea em busca de possíveis vazamentos. Sondagens aqui e ali; conexões revisadas, buchas suspeitas trocadas, torneiras substituídas. Tudo certinho. Fins de tarde, pelo sim, pelo não, passei a fechar o hidrômetro, prevenindo-me de alguma travessura do aparato na calada da noite. Na internet sugerem que ventos armazenados – citados por aquela senhora PhD. em ciências – também podem fazer girar o reloginho.

Inútil: no mês seguinte, nova bordoada em nossa combalida conta bancária. Cocei a cabeça – agora um tanto oleosa pela carência dos shampoos diários de outrora. O que fazer? Sem escolha, dirigi-me ao guichê de atendimento da companhia. Aqui, vale uma pequena observação sobre o colóquio. Do outro lado do balcão, o jovem de olhos frios e fixos na tela do computador trata-nos com metade de indiferença e outra metade de gentil arrogância. Ele está certo. Afinal, quem somos nós – simples clientes compulsórios – para questionar o perfeito sistema silencioso que corre sob nossos pés?

“Consumo anormal novamente” – disse o rapaz. Ó céus! Convencido de minha estupidez acerca do trânsito dos fluidos, já ia me retirando quando uma ninfa benfazeja sussurrou-me: “Psiu! Peça para trocar o hidrômetro!”. Boa ideia! Quem sabe? Dei meia-volta e solicitei humildemente a substituição do aparelho.

Aleluia! Atento aos números que antes giravam desvairados, veio um grande alívio ao constatar que, agora, os algarismos passavam devagarinho, bem comportados. Estava solucionada a questão: para mim, o dito consumo anormal fora culpa exclusiva de um hidrômetro velho e ranzinza. Que tal, então, receber de volta a grana paga inadvertidamente?

Que nada: a companhia, do alto de suas caixas-d’água soberanas, nem quis papo. Disse-me ter enviado o velho ranzinza para uma autópsia qualificada, numa entidade também governamental. E que os doutores oficiais tinham absolvido o defunto, alegando que os trabalhos dele, quando em vida, “encontravam-se dentro dos limites estabelecidos”. Assim, a responsabilidade voltava às minhas tubulações particulares. Trocaram o hidrômetro jurássico por um novinho; o valor da conta despencou imediatamente, retornando ao normal – porém o aparelho anterior saiu ileso da inspeção. Problema meu, ué. Tomou, Fernando?

Soube ainda que a vida útil de um hidrômetro é de seis a oito anos. O meu funcionava há mais de uma década, descuido imperdoável. Aprenda a lição: diariamente, ao passar pelo hidrômetro de sua casa, seja educado. Pergunte a ele sobre o aniversário, quantos aninhos está fazendo, se está alegre e feliz naquela caixinha, se lhe dói a solidão nas noites de inverno.

Dando o último aperto na rosca espanada de minha ignorância, o atendente esclareceu-me que, na hipótese de alguma falha técnica, a classe trabalhadora dos hidrômetros erra sempre para menos. Nossa! O que é a tecnologia! A inteligência artificial sofisticadíssima do medidor idoso e exausto impedem-no de registrar consumo “a mais” para a companhia! O caridoso aparelho só erra “para menos”, em respeito a nós, consumidores, sabiam? Incrédulo com tamanha ética mecânica, ouvi o rapaz repetindo o refrão:

– Só erram para menos, sempre! – assegurou-me, olhos fixos na tela do computador.

Fui embora agradecido e comovido. Não são fofos os hidrômetros, gente?

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