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Fernando Fabbrini

Jeans cor-de-rosa

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PUBLICADO EM 30/08/18 - 03h00

Os primeiros jeans índigo blues – Lee, Wrangler e Levi’s, lembram-se? – eram preciosidades compradas nas mãos dos pilotos da Varig, dos contrabandistas paraguaios e sabe-se lá de qual outro contraventor. Um sufoco danado. Para os colegas ricos ficava fácil: os pais viajavam com frequência aos Estados Unidos e sempre traziam jeans de presente.

Na esteira da chegada desse ícone revolucionário, nossa juventude deparou-se com outra novidade: os jeans Lee brancos. Raríssimos, eram disputados a tapa. O corte clássico, “five-pockets”, seguia o modelo dos azuis. Mas o brim, na cor creme, dava o toque alternativo da modernidade. Para os rapazes, o máximo daquela época envolvia três itens: jeans Lee brancos, camisa da Marinha (algodão azul claro, botões pretos) e mocassins Motex, os dois últimos só encontráveis no Rio de Janeiro. Como era duro morar em BH e andar na moda!

Um dia, não me lembro mais às custas de quantas economias e peripécias, consegui realizar meu modesto sonho de consumo: comprei uma calça Lee branca de um contrabandista na Galeria Ouvidor. E em boa hora, já que no sábado seguinte rolaria uma festa de aniversário de uma amiga.

Após a ajeitada final diante do espelho – camisa da Marinha, sapatos Motex e calça Lee branca novinha –, perfumei-me com um borrifo do nauseante Lancaster e subi a rua do Ouro, animado. Chegando, ouvi uma música linda e desconhecida. A aniversariante, numa calça saint-tropez boca de sino amarela, veio mostrar-me o long play que tinha ganhado do pai:

– Olha que legal! Já ouviu eles?

“Friday night and the lights are low… Looking out for a place to go…”.

Foi uma overdose. Nada de drogas; a gente não era disso. No máximo, penávamos overdoses de cuba-libres ou hi-fis, regurgitados num canto qualquer, de madrugada, voltando pra casa. A festa fora, sim, uma overdose de Abba, o grupo sueco que balançou nossas ancas e nossos corações durante toda uma década.

De repente, olha o Abba aí de novo. De carona na trilha sonora do filme “Mamma Mia”, a banda ressuscitou e retornou às paradas. Fui ver o filme, num dia de semana. Na fileira de trás, um bando de adolescentes de uniformes – matando aulas, certamente – cantava todas as letras com animação e desenvoltura, provando que música boa é aquela que vence o tempo e os modismos. Quase virei-me pra contar a elas que Anni-Frid, Benny, Björn e Agnetha – os quatro que batizaram o conjunto com as próprias iniciais – já estavam na faixa etária de seus avós, aí pelos 70 anos. Anni-Frid e Björn, os mais velhos, nasceram em 1945, imaginem. E a turma está trabalhando outra vez, ensaiando para uma turnê internacional em breve.

Ouvir novamente o Abba trouxe-me lembranças carinhosas. Por outro lado, devo também a eles uma marca indelével na minha vida. Volto à tal festinha de aniversário. No auge da hora dançante, arrumamos uma beirada na varanda, ao lado do jardim, para assentar e apreciar o balanço das meninas no “Dancing Queen”. Que desgraça! O tal parapeito, em cerâmica vermelha, tinha sido cuidadosamente encerado pela empregada, à tarde, caprichando no polimento para a festa. E sobre ele, sem perceber, esfreguei-me no ritmo do rock, minutos antes de entrar no salão.

Ao som de outro sucesso do Abba – “Fernando” – tomei coragem e tirei uma garota pra dançar. Já nos primeiros passos ouvi risadinhas da turma. Desconfiei que fosse pela alusão da banda ao meu nome. Errado: não era a banda, mas a bunda; minha bunda vermelha. Riam de minha única Lee branca, na sua noite de estreia, exibindo um borrão gigantesco da Super Cera Parquetina Vermelha Cardeal.

Durante uma semana minha mãe e a lavadeira tentaram reparar o dano. Detergente, sabão em pó e em barra, água sanitária. Só piorava: o vermelho diluiu-se e ocupou o território inteiro, da cintura às bainhas. Assim, minha querida calça Lee branca transformou-se no primeiro jeans cor-de-rosa da história do rock. Desolado e relutante, permiti que fosse doada à caridade na igreja. Fim de uma história de amor adolescente. Perdi minha calça novinha; a Cera Parquetina Vermelha levou-a para sempre. Como cantava o Abba: “the winner takes it all”.

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