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Fernando Fabbrini

Kriptonitas

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PUBLICADO EM 12/07/18 - 03h00

Até o Super-Homem, com todos aqueles poderes, fica fraquinho na presença da terrível pedra verde do planeta Kripton. A vida imita a arte e também as histórias em quadrinhos. Então, quem somos nós – homens comuns – para resistirmos a certas ameaças atuais do planeta Terra? Por isso batizei como kriptonitas as coisas do dia a dia que atacam nossos pontos fracos. Sabemos que nos fazem mal e, mesmo assim, elas nos atraem e nos liquidam.

Venho identificando minhas kriptonitas e colecionando as dos amigos. Surpreso, descobri que a lista é enorme, curiosa e variadíssima, envolvendo sabores, objetos, configurações, itens palpáveis ou ocultos, formas, odores – ufa! O rol de atrações fatais é infinita.

Começo pelas minhas, ambas no subgrupo culinário. Em primeiríssimo lugar, os pastéis. Adepto da vida saudável e da alimentação quase natureba, confesso de público essa kriptonita particular: não consigo passar diante de uma vitrine de boteco sem me deter. Ali estão eles dispostos como dominós tentadores, em duas fileiras – carne e queijo.

Cautela: só é possível identificar com absoluta segurança a natureza de um pastel após a primeira mordida. Não importa o que disser o balconista, a antiga regra continua valendo. Morda o pastel: se tiver batata, será de carne. Se não tiver nada, será de queijo. Por outro lado, a aparência do pastel não garante sua qualidade. Várias vezes sobrevivi a pastéis de camarão servidos em barracas de praias do Nordeste. No entanto, já fui abatido por inocentes pasteizinhos de festas infantis, oferecidos por moças risonhas em bufês elegantes. Mas nada se compara aos pastéis preparados pela minha irmã Selma, seguindo uma tradição familiar luso-italiana. São perfeitos na forma, no aroma e no recheio meticuloso, cada qual contemplado com uma honesta azeitona.

Minha segunda e felizmente derradeira kriptonita é o torresmo. Não falo desses vagabundos feitos de restos suínos, mas daqueles elaborados com rigor e arte. Ao me servir, prometo conceder-me apenas um mísero torresmo, porque ninguém é de ferro. No entanto, o fator kriptonita ataca e, quando me dou conta, já peguei meia dúzia deles, ocultados sob a folha de alface para evitar olhares de censura.

Felizmente, kriptonitas culinárias são controláveis. Basta uma boca amarga, uma indigestão ou uma dor de cabeça no dia seguinte para jurarmos que tão cedo cairemos noutra. O problema é quando as kriptonitas das imediações são vivas, pertencentes à espécie humana e do gênero feminino.

Um velho conhecido, escaldado por uma série de relacionamentos infelizes, constatou tardiamente que era excessivamente vulnerável a certas kriptonitas femininas. E que, por causa delas, tinha feito muita bobagem na vida, sofrendo as consequências. Precavido, iniciou uma lista de características femininas perigosas, tentando blindar-se das tentações. Não repetiria erros do passado. Por exemplo: jamais se deixaria seduzir por uma curva de ombros bronzeados ou um colo enfeitado com sardas. Expert no assunto, ia descrevendo seus pontos fracos, relembrando o que mais temia. Coitado: ao chegar ao item 83 desistiu, desanimado. Dolorosa constatação: kriptonitas de origem feminina são infinitas, imprevisíveis e impossíveis de se evitar; atacam o Super-Homem em qualquer lugar ou a qualquer momento.

Outros heróis convivem melhor com suas vulnerabilidades ao sexo oposto e até se divertem com elas. Um amigo revelou-me que sua kriptonita feminina são “mulheres meio narigudas”. Posta-se em silenciosa adoração submissa ao deparar-se com uma dotada do atributo nasal. Outro, com fama de emburrado, não resiste “àquelas que fecham os olhos quando sorriem”. Um terceiro, fixado em caras e bocas, mantém sua atenção na moça recém-apresentada. Se ela morder o lábio inferior após uma frase engraçada, apaixona-se no ato. Outro, ainda, fica magnetizado diante de mulheres ligeiramente estrábicas. “Adoro olhos vesgos me olhando enviesado”, disse. Vai entender?

Portanto, mulheres, não se agarrem aos ditames impostos pelas revistas de moda, sites de comportamento ou amigas faladeiras. Há uma estranha tendência universal de padronização feminina; moldes massacrantes vetando aquilo que vocês têm de mais original – só para enquadrá-las numa embalagem de Barbie, todas iguaizinhas. Não caiam nessa: cada mulher deve externar sua kriptonita latente e inexplorada, pronta para fascinar, submeter e tornar escravo o Super-Homem incauto. Usem suas kriptonitas, sem dó. Ah, e depressa: os últimos super-homens sensíveis a esses encantos sutis estão abandonando o planeta.

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