Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Fernando Fabbrini

Muita casa de pau

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
d
PUBLICADO EM 14/06/18 - 03h00

Distinto público do sofá da sala, atenção: está no ar mais um comercial pago com o seu, o meu, o nosso dinheiro. Como já fui publicitário, sei bem como essas coisas funcionam. O cliente – no caso, nossos honrados políticos – tem lá uma verba imensa para ser torrada em propaganda. Dinheiro nosso, repito, sugado via impostos. Problema recorrente: sentem que suas imagens individuais e corporativas não andam bem. Suspeitam que os cidadãos – nós – estamos por aqui, na tábua da beirada, enfarados, pês da vida. Daí, chamam a agência de propaganda:

– Pessoal, nossa imagem anda meio detonada. Precisamos melhorar isso!

Os publicitários, dotados de sensibilidade extraordinária na detecção de dinheiro, já têm a resposta na ponta da língua:

– Ora! Tudo se resolverá com um vídeo e inserções em todos os canais em horário nobre, aquele mais caro! Temos verba?

– Sim, dinheiro público sobrando!

E assim, justos e contratados, põem as minhocas cerebrais para funcionar. Depois de alguma elucubração (não muita, é verdade) apresentam o roteiro de comercial cheio de intenções veladas e sutilezas explícitas, explicando-o para o comitê que o encomendou: 

– Bem, nosso vídeo mostrará duas casas de madeira sendo construídas. Uma das casas de madeira é montada de qualquer jeito. Na outra, são vocês, os bonzinhos e competentes. Tudo certinho, com cálculos, plantas, gente bonita. A simbologia da casa feia ficará por conta do imaginário do espectador. No final, a casa malfeita despenca. Captaram a ideia?

Alguns sorriem, impressionados com tamanha criatividade. Balançam as cabeças, cúmplices. No entanto, um deles, até então alheio e mexendo no celular, perguntará:

– Hum... “Casa caindo”? Isso não passará uma mensagem subliminar? Um ato falho?

Segue-se um rápido bate-boca, as bobagens de sempre, teorias rasteiras envolvendo meio e mensagem. Ao final, assina-se a ordem de produção e o plano de mídia – uma fortuna, leitores. É a assinatura de uma nova pena de morte para nosso dinheirinho.

A propaganda oficial – feita pelos Três Poderes – mantém-se como uma das grandes vergonhas nacionais. Também nisso o Brasil se iguala às repúblicas bananeiras; muitos países sérios proibiram essa excrescência há tempos. Também, pudera: presidentes, deputados, vereadores, governadores e prefeitos foram eleitos para trabalhar, estão lá para isso mesmo. Não fazem mais que suas obrigações, concordam? Gastar nosso dinheiro assim – num país de tantas urgências e carências mais importantes – é muita desfaçatez. 

Políticos precisariam, às nossas custas, “anunciar” que estão trabalhando? Não é uma coisa estranha? O fato é que a propaganda “oficial” continua sendo uma caixa-preta onde se escondem monstros horrendos. O mensalão do PT foi o primeiro monstrinho que escapou, por descuido, revelando a treta. Outros bichos, oriundos de partidos diversos, fazem o trânsito do dinheirão de um ninho para outro, na calada da noite. E a coisa continua; novas ninhadas são chocadas na surdina nos gabinetes. Há pouco tempo estourou o escândalo da Câmara Municipal de Belo Horizonte, onde milhões foram afanados por meio de... qual modalidade, mesmo? Ah! Lembrei: por meio das “verbas de propaganda”. 

Analisando friamente a publicidade oficial – visão estritamente técnica de um ex-profissional de comunicação e marketing –, vemos que nem mesmo para comunicar a coisa serve. Amarrem um indivíduo a uma cadeira postada à frente da TV, olhos arregalados. Exibam o comercial oficial um milhão de vezes. Inútil: a imagem dos políticos nacionais continuará sendo a de privilegiados, preocupados exclusivamente em se manter no poder; membros de uma panelinha onde todos se protegem; senhores de cabides de empregos milionários e nomeações de amiguinhos; espertalhões, folgados e outros adjetivos menos carinhosos. 

Querem ter boa imagem, senhores políticos? Muito fácil e barato: trabalhem mais pelos cidadãos e pela comunidade - e menos por seus próprios interesses. Honrem, de verdade, seus cargos e suas casas. Aos olhos cansados do público, de quem rala das 8h às 18h e paga boletos em dia com sacrifícios, casas bonitinhas assim, elogiadas artificialmente, chegam a ser hilárias. 

De duas, uma: nossos políticos habitam outras dimensões ou galáxias, absolutamente alienados do que se passa hoje na cabeça de seus vizinhos brasileiros, ou, pior: é apenas mais um caso grave de casa de pau. Haja óleo de peroba, em barris, tonéis, containers para uso diário e ininterrupto.

O que achou deste artigo?
Fechar

Muita casa de pau
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório

comentários (8)

Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter