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Fernando Fabbrini

Na lama de terno branco

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PUBLICADO EM 06/09/18 - 03h00

O bom senso e a civilidade recomendam que não devemos discutir futebol, religião e política. O risco é perder amigos do time adversário; ser condenado à fogueira da Inquisição ou ter de suportar, com calma e fair-play, o fervor de militantes radicais. Entendo: esses temas mexem com o que as pessoas têm de melhor – e de pior: suas ilusões do sempre vencer, suas crenças, seu medos reais e imaginários. Cutucar esses vespeiros é descobrir, até sem querer, os ferrões que escondem lá no fundo.

Do futebol e da religião me preservo. Porém, é inevitável falar de política nesses tempos de Brasil desorientado. Tento trilhar o caminho do meio, orelhas de pé, farejando tudo. A internet está saturada de opiniões, “memes”, fobias e rosnados de etnias variadas. E já que estou no bolo, aproveito para me divertir com as melhores tiradas.

Uma amiga postou que “as entrevistas do ‘Jornal Nacional’ são ótimas. Com elas, ficamos sabendo mais as opiniões do Bonner e da Renata a respeito do Brasil. Pena que sempre tem um candidato interrompendo-os”.

Mais sério, o colunista J.R. Guzzo – do qual sou devoto – acertou outra vez. Para ele, o impedimento da candidatura do sr. Luiz Inácio já deveria estar resolvido há tempos, com uma simples olhada de um servidor de cartório eleitoral.

Concordo. Penso que diria assim o burocrata: “Senhores, respeitem a fila, vou atender a todos... Seu candidato é menor de 35 anos? Não pode, está na lei. Próximo!? O candidato reside no Camboja? Ah, que pena, também não pode, está na lei. Próximo!? O candidato reside na cadeia, condenado em segunda instância a 12 anos de xilindró por corrupção e lavagem de dinheiro? Sinto muito; também não pode, está na Lei da Ficha Limpa. Próximo!?”. No entanto, segundo o Guzzo, tal simplicidade do procedimento afrontaria intelectuais e pegaria mal no “The New York Times”. Então, tem que levar pro Supremo, pra ONU, pro Vaticano, com pompa, circunstância e mi-mi-mis.

Comunicólogos informam que a TV é que continuará mandando bem. A propósito, confesso uma pequena perversão: meu fraco pelo horário eleitoral. Ansioso, confiro no relógio; trago pipoca e suco para o sofá.

Notei candidatos investindo pesado nas eleições de... 1918. Já ouvi: “lutarei por uma economia popular e independente, sem ligações com os mercados globalizados”. Ou: “vamos ocupar todos os bancos, eliminando o dinheiro, que é a causa da desigualdade social”. A seguinte foi proferida em dialeto desconhecido; alguém me ajuda? “As minuciosidades (?) dos coletivos a gente quer organizar em espaços específicos”.

Entre uma pipoca e outra, classifico os personagens do show. Existem partidos curiosos. O PREEJ, por exemplo, é o Partido da Reciclagem e da Eterna Juventude. Nele estão aquelas caras que a gente conhece desde os tempos do Getúlio. A aparência risonha e jovial que exibem, anos a fio, é um milagre do Photoshop e da memória curta dos eleitores.

Depois vem o PCAPI – Partido do Chavão e das Antigas Promessas Ilusórias. Assista às mensagens deles e ganhe um curso de retórica para uso em palanques. Relaxante e digestivo após o jantar é o PTERB – Partido dos Trovadores e Repentistas do Meu Brasil, mestre em versinhos do tipo “Meu irmão/nessa eleição/vote no Eslovão/ele é a solução”. Seus concorrentes mais ferrenhos estão instalados nas trincheiras frias e pragmáticas do PCNMN – Partido Calculista dos Numerólogos e Mnemônicos, cuja estratégia é repetir números de candidatos à exaustão, martelando a cabeça do eleitor. Há ainda o PBHUSU – Partido dos Bonzinhos, Humildes e Suplicantes; o PPERA – Partido da Porrada e da Revolta Armada; o PMMCAS – Partido da Minha Mudança de Classe e Ascensão Social.

Ao fim de cada horário eleitoral, roendo os derradeiros piruás e saboreando as últimas gargalhadas, fecho os olhos e sonho com aquele que seria meu partido do coração: o PVCTBI – Partido da Vergonha na Cara e do Terno Branco Imaculado. A ele dedicaria todos os votos possíveis, até faria campanha. Eleitos, os membros dessa agremiação realizariam a proeza de navegar pelos mares de lama durante quatro anos, voltando pra casa sem um único respingo nas vestes. 

 

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