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Fernando Fabbrini

O pouco que a gente pode

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PUBLICADO EM 13/09/18 - 03h00

Uma das coisas que me atraem na filosofia zen é o senso de humor que permeia seus textos, a vida nos mosteiros e a rotina diária. Os adeptos tratam de coisas seríssimas e importantes, mas nunca perdendo a graça, a surpresa e as contradições do que somos, seres humanos imperfeitos. Quem não sabe rir das situações e de si mesmo não vai longe, dizem. Na tradição zen, há fábulas divertidas, como a do homem angustiado que procurava consolo e desabafou diante do mestre:

– Minha vida está uma droga! Eu queria muito...

– Pode parar, já entendi seu problema...

– Como assim?

– Basta tirar de sua frase esse “eu” – isso é só “ego”, muito ruim. Depois tire esse “queria muito”, isso é só “desejo”, faz muito mal. Apenas viva cada momento como ele for, porque tudo passará. E seja feliz.

Será que daríamos conta da profundidade desse conselho, surfando pela vida sem egos ansiosos ou desejos tormentosos, aceitando as marolas e curtindo altos e baixos da jornada? Com frequência reflito sobre nossa capacidade – como indivíduos limitados – de mudar alguma coisa no mundo. Mudar, na gente mesmo, pode ser mais fácil. Porém, na nossa família, na escola, no trabalho, enfim, no universo que compartilhamos com milhões de pessoas, não é impossível – mas também não é mole. “O inferno são os outros”, lembrava Sartre.

Com a proximidade das eleições, isso subiu à tona. Cada qual tem seus sonhos de um país mais justo, menos corrupto, mais próspero. Podemos fazer campanhas com os amigos, defender nossos pontos de vista, dialogar sobre o que achamos ser ideal para o Brasil. Porém, na hora agá, o eleitor tem só um voto – unzinho –, uma aposta solitária no futuro.

Mas alguns pensam diferente. Os tais egos e desejos apontados pelo mestre zen da fábula podem extrapolar, alcançar as raias da insanidade. O sujeito bota uma ideia (ou um delírio) na cabeça, pega uma arma e concede-se o poder absoluto de mudar o mundo na marra.

No século passado, o jovem Gavrilo Princip atirou contra o arquiduque Ferdinando em Sarajevo. Talvez não imaginasse a amplitude de seu gesto. Com um só tiro provocou a guerra com o maior número de mortos da história. Inúmeros anônimos tentam hoje impor seus egos e desejos pela via do terror. Disparam fuzis nas escolas, explodem-se em shows musicais, metrôs, ônibus com crianças e gente comum rumo ao trabalho. Às vezes dizem-se ser apenas a ponta da lança, a ferramenta. Se sobrevivem, explicam-se: foram mandados; são o resultado de “ordens superiores” – humanas ou divinas.

O museu Beatles Story fica nas docas do rio Mersey, em Liverpool. É uma atração mundial para os curtidores da banda. Estive lá mais de uma vez, mas sempre me emociono quando entro no espaço dedicado a John Lennon. Na sala pequena existe somente um piano branco e, sobre ele, um par de óculos redondos, similares aos de Lennon. A surpresa maior está nas paredes em volta, totalmente cobertas por jornais do mundo inteiro de dezembro de 1980, com a notícia do assassinato. O Brasil está presente nas páginas de dois jornais, salvo engano.

O mais interessante é que o museu fez questão de cobrir com tinta preta o nome do criminoso em todas as reportagens. Nas entrelinhas deram o recado: se o assassino buscava notoriedade como “o cara que matou John Lennon”, lá não. Lá ninguém eternizará seu nome, achei legal. Gente assim não merece lugar nas biografias da humanidade.

O Brasil nunca viveu uma polarização desse nível na política. Ora: se um candidato prega o uso generalizado da metralhadora e outro venera a cartilha marxista, diga sim ou não a quem quiser com seu voto. É o pouco – mas o essencial – que podemos. Depois, basta aguardar o que a maioria das urnas vai decidir – e fim de papo.

O ambiente encontra-se sob medida para a explosão de egos, neuras e desejos desesperados de ambos os lados da disputa. A decantada cordialidade nacional parece ser o disfarce hipócrita de sanguinários inimagináveis. Portanto, calminha aí, seus terroristas amadores.

 

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