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Fernando Fabbrini

Profissão professor

A gente coleciona certas frustrações ao longo da vida; é inevitável

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PUBLICADO EM 11/10/18 - 03h00

A gente coleciona certas frustrações ao longo da vida; é inevitável. Algumas são compensadas pelos golzinhos que marcamos aqui e ali – tudo bem, e vamos tocando. Dizia Cecília Meireles, num poema muito sábio: “Quem sobe nos ares não fica no chão/ quem fica no chão não sobe nos ares/ é uma grande pena que não se possa estar/ao mesmo tempo nos dois lugares...”

Ah, as escolhas! Tivesse eu uma vida mais serena e acadêmica e seria hoje, com muito orgulho, um professor. Professor de qualquer coisa, de qualquer matéria que me fascinasse e que me desse vontade de passar adiante, multiplicando o fascínio.

Na Índia os estudantes mantêm um hábito cerimonioso – um tanto exagerado e ligeiramente cômico, convenhamos. Em sinal de respeito, curvam-se e fazem menção de tocar os pés de seus professores ao cumprimentá-los. Já aqui, professores começaram a ser tratados na porrada. E as porradas têm forma e conteúdo bastante variados. Pode ser um tapinha sutil, como o do aluno que despreza a aula dada com carinho para mexer no celular, perdido nos encantos enganosos da nuvem. Pode ser um golpe baixo, covarde e descarado, do tipo queixar-se ao papai, à mamãe, à diretoria da escola porque malandrou e levou zero na prova.

Há um caso sinistro da professora que ministrava a matéria ética profissional numa faculdade. Certo semestre, ao receber as provas da turma, constatou que muitas delas tinham seus conteúdos chupados da internet. Parágrafos inteiros idênticos, na maior cara de pau. Ela até levou na brincadeira:

– Puxa, pessoal, prova de ética profissional copiada e colada da Wikipédia? Vocês estão brincando?

Sem pestanejar, meteu um zero redondo em cada uma delas. Aprenderam a lição, futuros doutores? Que nada: preocupados com a possível reprovação, foram todos se queixar ao coordenador do curso. O qual, talvez preocupado com seu contracheque, levou o problema à diretoria. A qual, atenta a seu faturamento, chamou a professora para uma conversa:

– Bem, fulana, você deu zero para metade da turma... Sabe como é... O pessoal fica bravo; escola muito rígida espanta alunos... Dá pra reconsiderar?

A professora, fiel à ética profissional e também à sua própria, fincou o pé, disse “não”. Contam que a diretoria, com medo de perder seus caros alunos, deu um jeitinho de passar todo mundo. Já a professora, após uma depressão profunda, demitiu-se.

No Brasil, somando-se às atrocidades acima citadas, aumentaram agora as agressões, tapas, socos e safanões mesmo. Não bastasse o desrespeito de muitos, as risadinhas, o desprezo por alguém que ali ganha um salário miserável ensinando por idealismo, alguns alunos agora batem no professor.

Um jovem que faz isso certamente vem de uma família problemática, na qual conceitos como limite, afeto e cooperação não existem. Assim, quando agride um professor, ele passa por cima de valores mínimos de um ser humano civilizado, aqueles básicos, trazidos do berço.

Porém, consigo enxergar algo ainda mais grave. Hoje confunde-se “autoridade” com “autoritarismo”. São duas coisas completamente diferentes, mas vivemos um tempo de lambanças e falácias propositais. Ao colocar-se na posição de “aprendiz”, a pessoa aceita que diante dela estará uma “autoridade”; alguém que “sabe mais” e, por isso, está ali. É a regra do jogo. Li outro dia que “a aprendizagem existe quando alguém quer aprender – e não quando alguém quer ensinar”. A frase genial é de Roger Schwank, criador dos rudimentos da inteligência artificial.

A porrada no professor vai além de uma agressão àquele que “sabe mais”. Na verdade, é um ataque à sabedoria, ao conhecimento, à evolução. Submeter-se – por respeito e humildade – a “alguém que sabe mais” soa inadmissível para quem prefere agarrar-se à própria estupidez. “Bato nele porque ele me assusta com seu conhecimento, muito além da minha burrice. Então, contra a inteligência, o método, a ordem, a disciplina do aprendizado e a autoridade, lá vai porrada”.

Ainda bem que não virei professor. Acho que não aguentaria nem uma semana. 

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