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Fernando Fabbrini

Rotinas e manias

O tempo vai passando e nossos corpos – que viveram muitas primaveras e verões agitados – acomodam-se com o outono, à espera do inevitável inverno

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PUBLICADO EM 27/09/18 - 03h00

O tempo vai passando e nossos corpos – que viveram muitas primaveras e verões agitados – acomodam-se com o outono, à espera do inevitável inverno. Caem as folhas, os cabelos; despencam as pálpebras, as epidermes, as bochechas e outros relevos. Daí, uma rotina diferente começa a pautar nossa vida. Deve ser um mecanismo de sobrevivência, uma pisada inconsciente no freio, um apego às origens e ao essencial. Assim, ficamos mais caseiros, enamorados de nosso sofá, de nossa cama acolhedora. Sozinhos, passamos a apreciar a própria companhia. Diz a piada que sabemos que a idade está chegando quando, entre dois programas pra noite, escolhemos aquele que termina mais cedo.

Algumas rotinas, na verdade, até nos fazem bem – comer na hora certa; sono regular e revigorante; trabalho leve e prazeroso; atividade física sem exageros – além de solidões voluntárias para acerto de contas diário com nosso íntimo. Porém, atenção! – dizem os médicos – rigidez e rotinas em excesso fazem mal; são prisões disfarçadas.

Gênios, artistas e excêntricos costumam colecionar rotinas e manias. Carlos Drummond de Andrade só almoçava e jantava o mesmo prato, sem mudar nada: arroz, feijão, um bife, duas rodelas de tomate e duas folhas de alface. Se fossem três folhas, devolvia. Portinari tinha mania de limpeza, quase uma neura. Contrariando o estereótipo do artista bagunçado, ele mantinha seu ateliê bem arrumadinho. Quando os colegas criticavam-no, respondia:

– Reparem: a vassoura é apenas um grande pincel....

Nikola Tesla, que revolucionou a eletricidade e falava oito línguas, regia sua vida pelo número três. Por exemplo: jamais ficava em quartos de hotéis de números não divisíveis por três. Einstein, certo dia, vinha caminhando pelo gramado de Princeton, absorto em suas teorias. Ao cruzar com alunos, perguntou:

– Desculpem... Podem me informar se estou vindo da portaria ou do auditório?

– Do auditório, professor...

– Ah, bom, obrigado. Então, quer dizer que já almocei.

Andar à toa e sem destino faz bem. Um amigo confessou-me que é esta sua receita atual contra os males do corpo (físicos), os da mente (tristezas) e os do coração (aqueles outros). Ele anda o dia inteiro. Bate pernas pela Savassi, encontra velhos conhecidos, admira as moças bonitas que passam, toma um café com calma, folheia lançamentos na livraria. Após a perda da esposa, segurou uma barra pesada, recolheu-se em casa, olhando pro teto. Até que um dia a vida (ou a rua?) chamou-o de volta. Agora, anda bem mais animado – em todos os sentidos.

Eu também, por necessidades e compromissos, bato pernas diariamente. Por precaução, evito repetir trajetos, à caça de eventos que possam gerar crônicas como esta. E vou registrando algumas prisões curiosas na paisagem. Na mesa de um restaurante de comida a quilo um rapaz solitário se assenta rigorosamente na mesma posição, voltado ao Noroeste. Olhando fixo para o infinito, leva o garfo à boca num gesto automático, seguramente há uma década. Outro sujeito frequenta a mesa do canto de um bar. Traz o jornal, pede uma cerveja, faz um aperitivo pro almoço, sempre sozinho. Dias, meses, anos seguidos repete o ritual, no mesmo horário. Dá pra acertar o relógio com sua rotina perfeita.

Tempos atrás, quando as ruas de nossa cidade ainda ofereciam vagas sombreadas e gratuitas para os automóveis, um colega de trabalho vivia subjugado numa rotina escravizadora. Ele estacionava o carro sempre no mesmo local. No entanto, se alguém ocupasse “sua” vaga antes, o cara entrava em pânico. Se fosse gente da empresa, emburrava; dizia-se “desrespeitado”, descia o pau na pessoa. Se fosse um motorista desconhecido, pior. Inquieto, nervoso, nem conseguia trabalhar direito. Fumava um cigarro atrás do outro; corria à janela, constatando se o intruso fora embora – para então sair correndo e estacionar sua Brasília azul. Só aí relaxava. O gozado é que existiam muitas vagas no quarteirão, com sombras convidativas, espaço à vontade. Mas ele não abria mão de “sua” vaga.

Outro amigo, ex-publicitário como eu, revelou-me no café de ontem que sua mania atual é apaixonar-se. Virou bígamo, polígamo; anda de caso firme com várias mulheres. Mas, acalmou-me; não há perigo. É tudo platônico, elas nem estão sabendo.

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