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Fernando Fabbrini

Tomate, essa fruta

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PUBLICADO EM 23/08/18 - 03h00

Faz bem esquecer-se por um momento da deprimente política nacional e papear sobre algo mais honesto e interessante. Tomates, por exemplo. Foi esse prazer que me concedi nesta semana, aprendendo a receita de molho ao sugo de meu amigo Pino Marinelli. Além dos segredos do tomate, Marinelli também é especialista em outras paixões da mesma cor, como Ferraris e Maseratis. Piloto e mecânico de alta categoria, Pino tornou-se um conceituado preparador dessas máquinas puros-sangues.

Outro uso do tomate é que você pode escrever uma crônica de título intrigante, dizendo ser ele uma fruta – ao contrário do que pensa muita gente. Acostumados a comprá-lo nas bancas de legumes, confundimos as coisas. Essencial na culinária italiana, o tomate não é originário da Europa, mas de áreas do Peru, do norte do Chile, do Equador, das ilhas Galápagos. Veio de lá por volta do século XVI e era usado apenas como enfeite das mesas, até que um esfomeado resolveu cozinhá-lo. Companheiro ideal da refeição, o macarrão veio da China, na bagagem de Marco Polo, o que faz do espaguete ao sugo um marco da fusão perfeita de dois mundos.

Do papo com Marinelli trago a receita do molho ao sugo. Muito azeite extravirgem na frigideira, porém sem deixar ferver. Cozinhe nele a cebola picadinha, em fogo baixíssimo. Um dente de alho marca presença nesse ponto. Aí então entra o tomate, de preferência o pomodoro pelado, comprado em latinhas, ou uma boa “passata” italiana – o tomate em pasta. Sal a gosto. No final, um toque de mestre: acrescente uma colherada de manteiga ou de gorgonzola. Que tal?

Essa conversa fiada foi só pra dar água na boca; um atenuante para o meu assunto principal – este, nem um pouco saboroso. Ao comprarem tomate pelado ou a passata, os italianos agora consultam com cuidado as letras miúdas do rótulo. Dependendo da procedência do conteúdo, não levam; mudam de prateleira ou de supermercado. Explico o porquê.

Fábricas produzem coisas – as mais variadas, de garrafas PET a computadores. Toda fabricação gera detritos, refugos, sobras químicas, reagentes usados etc. É inevitável; assim acontece mundo afora e também na Itália. Só que lá teve lugar uma grande sacanagem – e não encontro outra palavra para definir o fato.

O descarte do lixo tóxico das indústrias é um problema mundial. Países civilizados vêm apertando a legislação a cada dia, visando à saúde das pessoas, dos animais, do meio ambiente. Descartar esse lixo com responsabilidade e segurança virou, sobretudo, um negócio muito caro. Porém, pode sair bem mais barato quando entram em cena os canalhas.

Na Itália, os bandidos farejaram o fedor de um negócio que prometia altos lucros: recolher o lixo tóxico no atacado, por um precinho camarada e pagamento facilitado. Infelizmente e na surdina, várias indústrias toparam esta treta ilegal e sem maiores exigências.

Durante cerca de duas décadas, toneladas de material contaminado – incluindo a terrível dioxina – foram levadas por caminhões e enterradas em qualquer lugar, às escondidas, sem nenhum escrúpulo. A maioria dos terrenos localizava-se na região conhecida como “mezzogiorno”, a Itália Meridional.

Em pouco tempo, o veneno do lixo tóxico acordou e começou a fazer vítimas. Casos crescentes de doenças estranhas e graves, como o câncer, sobretudo entre crianças e jovens, explodiram as estatísticas. Alarme geral. As autoridades impuseram medidas de emergência para detecção e controle das áreas contaminadas, proibindo o cultivo da terra e até o fluxo de público. Os bandidos aí descobriram que eles próprios, seus filhos, netos, vizinhos e amigos também seriam vítimas.

Já era tarde. A contaminação é diabólica, sorrateira, disfarça-se bem. Desaparece aqui por um tempo, ressurge acolá. Áreas imensas onde outrora existiam lavouras exuberantes sofreram as consequências. Nascentes de água pura, animais, verduras, legumes e frutas – como o tomate – absorveram o veneno.

Sobrou para nós, cozinheiros de fim de semana e donas de casa, agora estudar o mapa da Itália e conferir a procedência do tomate pelado e da passata. Pois é: nestes tempos, conhecer a geografia de outro país pode ser uma questão de sobrevivência. Quando criou o tomate e outras frutas, aposto que Deus não contava com essa.

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