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Fernando Fabbrini

Vietnã revisitado

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PUBLICADO EM 16/08/18 - 03h00

Nascida após a Segunda Guerra, quando seus pais alimentavam esperanças de dias melhores, a geração baby-boomer norte-americana não imaginava que teria outra guerra a sua espera. As explosões, os tiros e os gemidos que sacudiram o Sudeste asiático, a milhares de quilômetros de nós, ecoaram por aqui também.

O Vietnã mexeu com nossos corações e mentes. Éramos a tribo solidária do rock, dos jeans, da contracultura, de Woodstock, da rebeldia contra o chamado “sistema”. A TV e os jornais mostravam diariamente rapazes da nossa idade consumidos aos milhares numa guerra idiota que durou perto de 20 anos.

Nos anos 70, morei e perambulei de mochilão pela Europa. Não foram poucos os americanos desertores que conheci nas estradas e nas comunidades. Cabeludos, cheios de colares e pulseiras, tinham queimado seus cartões de alistamento e fugido para Canadá, Inglaterra e outros países. Numa pracinha em Lille, no Norte da França, tocávamos violão para levantar uma grana quando um grupo se aproximou. Era uma banda de rock principiante, em primeira turnê no exterior. Convidaram-nos para um concerto de protesto contra a guerra; ficamos amigos, compartilhamos acordes nas guitarras. A banda se chamava Chicago. Lembram-se de “If You Leave Me Now”? Um sucesso, com sua logomarca inconfundível.

Na esteira do rock, a guerra do Vietnã deu origem a outro marco de comportamento da juventude da minha época. O musical “Hair” saiu da Broadway, virou filme e conquistou plateias. Era o grito desesperado de quem repudiava aquele mundo hostil e absurdo. Afinal, a gente queria fazer amor – e não a guerra, bicho.
Tudo isso voltou-me à memória assistindo à produção “Guerra do Vietnã”, da Netflix. A série é objetiva e imparcial – características fundamentais de um documentário honesto. Graças a uma cuidadosa (e certamente extenuante) coleta de restos de filmes inéditos, fotos e documentos da época, o diretor Ken Burns montou uma obra-prima.

Há gravações secretas de conversas desabusadas entre Nixon e Kissinger; depoimentos emocionados de veteranos; de famílias que perderam seus membros; de jornalistas que estiveram lá. Temos também testemunhos de vietcongues idosos, de entidades prós e contrárias à guerra; de ex-prisioneiros traumatizados. A dor é unânime, de ambos os lados, provando que uma guerra não tem mesmo vencedores. E preparem-se: algumas cenas são terríveis, como a da menina Kim Phuc queimada por napalm – um ícone.

Se no início do conflito os fuzileiros americanos ainda se sentiam encorajados no papel fantasioso de guardiões da liberdade, a série mostra o patético cenário final da guerra: soldados mergulhados nas drogas, agredindo os oficiais, totalmente dopados para encarar o combate.

O Norte, apoiado pela China e pela Rússia, finalmente venceu. A capital, Saigon, e o resto do Sul foram tomados naquele feitio peculiar das guerras: massacres e estupros de civis, vinganças, selvageria sem limites. Na sequência, os comunistas implantaram um regime violento de doutrinação da população em campos de prisioneiros que lembravam Auschwitz.

Não bastassem as agruras da guerra, o povo comum sofreu mais ainda nos anos seguintes. A terra fora arrasada pelo lixo bélico despejado pelos B-52 americanos; o napalm e o Agente Laranja contaminaram para sempre as plantações de arroz, os rios, tudo.

Para piorar, a esquerda mostrou, de novo, sua incompetência histórica na gestão de economias e de pessoas. Sob sua direção, a inflação no Vietnã pós-guerra alcançou 700%; a fome, a doença e a miséria grassaram de norte a sul (recentemente, aqui na Venezuela, o modelo desastroso vai se repetindo, comandado por um tirano ensandecido e seus apoiadores).

Aos trancos e barrancos, o Vietnã se recuperou e hoje vai até batendo colegas do Sudeste asiático, graças à injeção providencial do ingrediente chamado “livre mercado”. Saigon foi rebatizada como Ho Chi Minh e tornou-se símbolo da abertura do país para o mundo globalizado. Cheia de arranha-céus, lojas de grife e carros de luxo, é a capital financeira do Vietnã, uma das cem cidades mais caras do mundo. Sinal dos tempos: a sede do Partido Comunista na capital fica defronte a um gigantesco shopping center.

Sejam os caros leitores baby-boomers ou jovens de 20 anos, não deixem de ver a série. É um alerta contra a bestialidade das guerras ideológicas que nos assombram de vez em quando.

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