Recuperar Senha
Fechar
Entrar

Flávia Denise

Literatura Brasileira: “Hinário Nacional”

Enviar por e-mail
Imprimir
Aumentar letra
Diminur letra
Hinário Nacional
PUBLICADO EM 21/03/16 - 03h00

Com a impressão de que, entre os milhares de lançamentos de 2015, os melhores livros me escaparam, eu comecei 2016 com uma missão: encontrar ao menos 12 grandes obras escritas por brasileiros (e trazê-las para este espaço). Os dias se tornaram semanas e meses e, apesar de encontrar alguns bons livros, me perguntei se teria que diminuir as expectativas. Felizmente, tive meu ideal salvo com a chegada do lançamento de Marcello Quintanilha, “Hinário Nacional” (ed. Veneta).

Dizer que um livro é uma “grande obra” é uma decisão complexa. Afinal, o que faz de uma obra grande? A resposta é subjetiva, mas não sem critérios. Obviamente, a escrita deve ser excelente, mas não é só isso. Uma grande obra trata de assuntos que têm importância ao seu público, nesse caso, o brasileiro, de uma forma que faz o leitor parar e refletir. Tantas vezes o que nos parece óbvio se torna abominável quando confrontado com um bom trecho de ficção.

E assim é “Hinário Nacional”, composto de seis contos unidos pela temática da violência. Uma mulher é violentada quando se permite enxergar que o mundo é surdo para suas ideias e opiniões. Uma menina perpetua o abuso quando defende o colega de sala que a estuprou. Um estuprador mascarado se obriga a engolir o ato que praticou e que o assombra. Um idoso ultrapassa os limites da boa educação ao tentar mostrar para uma jovem que ele também já foi desejável. Uma pessoa, tomada pelo desejo de esquecer seu sofrimento cede a pressões. Um homem deseja ser bem quisto, mas, com medo, é incapaz de abandonar o álcool e só sabe ser agressivo com aqueles que ama. Cada um é mais intenso do que o anterior.

Em todas as seis histórias é possível reconhecer o Brasil e seus habitantes; gente que tantas vezes tenta escapar de situações ruins e acaba caindo em piores, pessoas que buscam fazer algo de bom e terminam por perpetuar violências. E, em meio a tantas agressões familiares retratadas nas 136 páginas da obra, o que mais chama atenção é o olhar impiedoso do autor às agressões perpetuadas pelas próprias vítimas. É uma coisa dizer que todos temos as chaves de nossas próprias prisões. Outra é viver, por meio da leitura, esses pequenos trechos que deixam o desconforto do reconhecimento de cárceres vividos.

As narrativas são marcadas pela força, mas é a forma com que elas são contadas que coloca a poesia nas páginas do livro. Com traços realistas e sem o uso de cor, “Hinário Nacional” é um quadrinho. Não dou essa informação no fim do texto por acaso. Enquanto quadrinhos são uma linguagem cheia de possibilidades, citá-la traz à mente todas as maravilhosas referências de histórias de super-heróis, vilões e histórias singelas e lúdicas. De um ponto de vista narrativo, a obra de Marcello Quintanilha não poderia estar mais distante disso. “Hinário Nacional” é um relato brutalmente honesto – e muitas vezes gentil – do brasileiro. É um livro que incomoda, como toda grande obra deve ser. Sigo com minha missão com entusiasmo renovado. Restam 11.

O que achou deste artigo?
Fechar

Literatura Brasileira: “Hinário Nacional”
Caracteres restantes: 300
* Estes campos são de preenchimento obrigatório
Enviar Comentário

Li e aceito os termos de utilização
Compartilhar usando o Facebook
ou conecte-se com

ATENÇÃO

Cadastre-se para poder comentar

Comentar com Facebook Comentar com Twitter