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Flávia Denise

Narrativas sem palavras

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PUBLICADO EM 10/07/18 - 03h00

A narrativa é rainha. É dela que falam quando criticam um filme, é ela que dá sentido a uma série que se estende ao longo de uma década e é ela o tal “fio condutor” de um romance. Até mesmo fora de áreas conhecidas por contar histórias, a narrativa é senhora. É o caso do marketing, que descobriu o poder do storytelling (ou da contação de histórias), e da política, que costumava focar o personagem, mas agora inclui narrações que o localizam no mundo e pretendem revelar “outras facetas” do candidato.

Não importa o exemplo, todos têm um aspecto em comum: a narrativa depende da palavra. Ela pode escrita e pode ser falada, como num diálogo ou por alguém que observa, mas todas elas têm – mesmo que no cantinho, bem discreta – a palavra. Assim, acreditamos ser impossível contar histórias de outro jeito. Somente a linguagem verbal é capaz de comunicar, pensamos. E não é bem assim.

Muita gente escreve livros sem usar uma única palavra. Ou usando palavras somente para as formalidades: título, nome do autor e ficha catalográfica. E pronto. Não é novidade: autores-ilustradores brasileiros como Marilda Castanha e Renato Moriconi já fazem isso há décadas. A cartunista Laerte, conhecida pelas suas palavras afiadíssimas, também já testou essa forma de criação e publicou quadrinhos sem palavras, só com imagens hipnotizantes que inspiram outras compreensões.

No recente e crescente universo belo-horizontino dos quadrinhos os livros sem palavras também têm aparecido. Não são a maioria, não imagino que sejam sucesso de vendas, mas são criações que partem de projetos que se exprimem sem letras e merecem atenção. Sem querer listar todos – tarefa impossível –, deixo comentários sobre alguns autores-artistas da capital mineira que publicaram livros nos quais a palavra é periférica e a imagem é eleita ponto central da obra.

Jão é um deles. Ele está por trás de “Baixo Centro” (Miguilim), parceria com Rafael, e de “Parafuso nº 0” (Pulo), dois quadrinhos difíceis de serem interpretados por quem deixa sua leitura ser pautada pela palavra. As duas obras mostram a intensidade e a repetição da violência do centro de BH. Em “Baixo” vemos uma perseguição pelo centrão com ares de “Odisséia” enquanto “Parafuso” se aprofunda em uma única esquina, exacerbando a constância da agressão, que pode vir de qualquer lado e de qualquer pessoa.

Júlia Helena é outra. Com “Nave” (Independente), ela desafia o leitor que busca um sentido bem-mastigado. No livro financiado pelo Catarse, ela mostra como um ser de outro mundo provoca mudanças drásticas sem sequer ser detectado ao viajar em sua simpática nave. É um ensaio comovente sobre influências externas, força vital e ganância.

Régis Luiz também está nessa lista. “Introverso” (Black Ink) é um inventário de personalidades interiores. Sem uma narrativa proposta, poderia ser compreendido como um catálogo se as possibilidades não fossem tão sugestivas de personagens bem-formados. Todos eles fazem parte do sistema Introverso, um universo inconsciente que habita o corpo humano e determina a personalidade de cada pessoa.

Esse é só um gostinho do tipo de produção de altíssima qualidade que existe na cidade. Existem outros artistas trabalhando nesse tipo de narrativa em BH. Gente que se dedica à criação e a explorar outras formas de comunicação. De Marilda Castanha à nova geração de ilustradores de BH: só falta mais gente para ler e apreciar.

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