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Flávia Denise

'Nem Vem'

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PUBLICADO EM 12/03/18 - 03h00

Li um livro totalmente surpreendente. Realmente não sabia que era “permitido” escrever daquele jeito. A autora relata fatos reais e ficcionais sem usar frases grandes ou elaborar demais. O resultado é uma escrita telegráfica e direta. Tão direta que, na verdade, o leitor enxerga tudo, como se as ações descritas acontecessem diante de si. Ela finge falar de acontecimentos banais, de sonhos ou comentar livros. Mas o que faz de fato é tirar toda a firula em torno do texto, deixando somente aquilo que é essencial. O resultado é uma escrita potente e sem véu que impacta o leitor.

A autora em questão é a norte-americana Lydia Davis. O livro, “Nem Vem”, foi dica da livreira Cláudia Massini, da Quixote. Ele foi lançado em 2014 nos Estados Unidos e chegou em agosto do ano passado no Brasil, com capa texturizada, tradução de Branca Vianna e publicação da Companhia das Letras.

Não me lembro de ouvir burburinho quando ele chegou. Por isso quis escrever neste espaço sobre ele. Nas 304 páginas da obra, estão 122 narrativas que desafiam categorização. Não são contos e não são poemas. Não são ficções ou relatos factuais. São, na grande maioria, textos curtíssimos, de parágrafo único, resumindo sentimentos que poderiam ser desenvolvidos em narrativas mil vezes mais longas. E esses sentimentos não ficam menores pela exposição breve.

O próprio nome do livro (“Nem Vem”) e sua versão no original (“Can’t and Won’t”) mostra o nível do comprometimento da autora com a concisão. Em uma das narrativas, ela explica que não ganhou um prêmio literário porque sua escrita foi considerada “preguiçosa”. Em vez de escrever “nem vem que não tem” (cannot and will not), ela contenta-se com “nem vem” (can’t and won't).

A genialidade no texto de Lydia Davis vai além da forma da escrita. Assim como ela é implacável na arte de cortar palavras, ela também não perdoa seus personagens. Sem julgar as ações ou explicitar seu ponto de vista, ela compõe um retrato preciso.

Assim, mostra o lado mesquinho, racista e elitista de seus personagens. E revela como essas pessoas interagem com o mundo, como entendem aquilo que acontece ao seu redor.

Em um dos textos mais longos do livro, “Os Dois Davis e o Tapete”, ela relata o processo mental de uma mulher cansada de sua tapeçaria. Incentivada por um bazar, ela tenta decidir se vai vendê-lo ou não. Interagindo com ela, um homem, igualmente indeciso, dispõe-se a comprá-lo. Mas só se ela quiser vender mesmo.

O vai e vem entre os dois, a incapacidade de assumir a responsabilidade da decisão de manter ou se livrar de um tapete bonito, porém velho e sujo, é um dos relatos mais honestos que li nos últimos anos. É preciso coragem para falar de si. E as personagens de Lydia Davis são tão parecidas entre si que não culpo quem imaginar que elas sejam manifestações da autora, escritas em momentos em que ela não estava disposta a se perdoar.

Assim, é fácil classificar “Nem Vem” como um desses livros que provocam um despertar. É cheio de narrativas tão curtas que seriam facilmente esquecidas se fôssemos julgar somente pelo tamanho. Só que elas não se permitem apagar. São potentes e obrigam o leitor a carregá-las. É livro para quem quer atualizar seu conceito pessoal de literatura.

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