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Flávia Denise

O quadrinista e a cidade

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PUBLICADO EM 12/06/18 - 03h00

Aconteceu. Após semanas em que não se tinha certeza se o evento iria acabar de vez. Com seis meses de atraso. Em meio a uma greve que parou o país. O 10º Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ-BH) superou os muitos obstáculos em seu caminho e reuniu nomes internacionais (Dave McKean esteve aqui!), quadrinistas profissionais e amadores de todo o Brasil e leitores e interessados na arte da imagem sequencial.

Quem esteve presente sabe que toda edição do FIQ deixa uma impressão acima de todas as outras: uma sobrecarga dos sentidos. Ali é fácil perder a capacidade de perceber o que está a nossa frente em meio às cores, às formas e aos encontros, que se sucedem ininterruptamente dentro e fora do galpão da Serraria Souza Pinto. A imagem oficial da 10ª edição do evento representa bem a sensação: uma pessoa de olhar estrelado, tamanha sua felicidade, se agarra a uma revista, que dispara raios, ventos e quadrinhos com uma força que arranca o leitor do chão.

Esse furacão cultural passou, deixando em seu rastro muitos admiradores de olhar estrelado, cada um com sua pilha de produções, que poderão ser apreciadas com calma, longe do turbilhão. Mas, felizmente para quem não se deu por satisfeito, ainda há vestígios de FIQ-BH espalhados pela cidade. Na Casa Fiat de Cultura, 12 mulheres quadrinistas exibem seus trabalhos na mostra “Inarredáveis” até 29 de julho. Essas artistas também organizam o Ateliê Aberto Narrativas Visuais e HQ aos sábados até 8 de julho.

E há o “Traçado na Memória”, talvez o ponto alto desse momento pós-FIQ. Foi uma exposição durante o evento, mas segue para a posteridade, em publicação da Livraria da Rua, como uma revista – bom, talvez eu devesse usar o termo “catálogo”. Na produção, foram reunidos 15 quadrinistas de Belo Horizonte e região metropolitana, que fizeram criações sobre seu pedaço preferido da cidade. 

Os lugares escolhidos são aqueles que já conhecemos bem: cemitério do Bonfim, Mercado Central, praça do Papa, Feira Hippie etc. São os pontos em que a cidade está viva, ou melhor, em que a cidade permite a reunião de quem está vivendo momentos que não são banais, repetitivos ou submetidos ao trabalho. Onde se desperta da rotina.

“Traçado na Memória" chama a atenção, mas não pela escolha dos pontos. É a seleção de quem fala sobre eles que faz a produção valer a leitura. Isso porque não foram registradas as lembranças saudosistas de quem gostava mais da cidade em outras épocas. Em sua grande maioria, são quadrinistas jovens que se apropriam de espaços da capital mineira.

O resultado é, entre outros, o cemitério do Bonfim com um simpático fantasminha criado por Julhelena, é um Baixo Centro de confluência de sensações registrado por Daniel Bretas, é um viaduto de Santa Tereza em que o passado distante e o presente convivem num delicado e equilibrado caos, como mostra Aline Lemos. É uma representação de uma cidade que tem passado, mas não vive em função dele. Uma cidade viva que ganha ainda mais energia com a presença e o olhar dos quadrinistas locais.

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