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Flávia Denise

Uma mulher inteira

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PUBLICADO EM 15/05/18 - 03h00

Ela não se chama Karen, mas é chamada de Karen. Ela é uma excelente ilustradora, mas ninguém jamais a viu desenhar. Ela ama seu pai e os passeios que faziam, mas todos sabem que ele era um homem terrível. Ela é independente e livre, mas é tratada como uma criança desobediente.

Uma mulher acorda numa cama que não reconhece, cercada de pessoas que nunca viu e é informada de que vai se recuperar após ter cometido o risco tolo de atravessar uma cachoeira para desbravar a caverna escondida pela água. Ela estranha a situação, mas mantém silêncio. Decide fingir que é mesmo quem dizem enquanto investiga melhor seus arredores, uma área rural da Inglaterra dos anos 60.

Qual é a distância entre quem realmente somos e a pessoa que os outros acreditam ver? Qual é a importância desse espaço? É a partir dessas perguntas que é construído o romance “Karen” (ed. Todavia), da portuguesa Ana Teresa Pereira. Escrito em primeira pessoa, obrigando o leitor a ver o mundo através dos olhos da protagonista. O livro é um rápido vislumbre da mente de uma mulher que tem dificuldades em conciliar seu mundo interno com o externo.

O romance lembra outras obras narradas a partir do ponto de vista de quem se sente desconectado da realidade, como impactante “O Homem do Castelo Alto” (ed. Aleph), de Philip K. Dick, e o elegante “My Real Children” (sem tradução), de Jo Walton. O primeiro é sobre um homem que vive um diferente mundo pós-Segunda Guerra Mundial; e o segundo, sobre uma mulher cuja vida amorosa parece ter catastróficas consequências mundiais.

Assim como tantas outras histórias que tratam de conflitos femininos silenciosos, “Karen” é construído com uma sutileza que faz as palavras parecerem sussurradas, nunca gritadas. É um texto que desacelera o mundo ao mesmo tempo em que cria um sentimento de urgência. Ana Teresa consegue aplicar potência a diálogos aparentemente ordinários que nunca vão direto ao ponto, mas revelam o crescente desconforto da protagonista e o tratamento desinteressado que recebe daqueles que dizem amá-la.

É uma obra que impede o leitor (ao menos esta leitora) de abandonar o livro antes que suas 120 páginas tenham sido lidas. Por isso, não é surpreendente que “Karen” tenha ganhado o prêmio Oceanos 2017, fazendo de Ana Teresa a primeira mulher a receber a honraria nos 15 anos em que ela é oferecida. Surpreendente é saber que a obra vencedora só foi publicada no Brasil neste ano, já como consequência do prêmio, e que é a primeira das 20 publicações da autora a chegar no país.

De consolação para a demora, fica o cuidado da edição brasileira. A recém-criada Todavia, além de fazer um livro fisicamente macio, que cede às curvas das mãos do leitor, se recusou a adequar a grafia portuguesa ao hábito brasileiro. A decisão se provou acertada para o texto, que, com palavras como “húmido” e “pequeno-almoço”, contribuem para o estranhamento do leitor brasileiro à realidade da personagem. Agora é esperar as outras 19 obras chegarem ao Brasil.

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