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Júlio Assis

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PUBLICADO EM 24/06/13 - 03h00

Há quase três meses, escrevi um texto publicado neste espaço, exatamente no dia 8 de abril último, cujo o primeiro parágrafo é este: “Há algo no ar que indica uma mudança na propagada passividade do brasileiro, conceito colocado quase que como um nosso defeito de fabricação. Mobilizações recentes em menor ou maior grau apontam que a indignação passa do discurso para a prática”.


Minha percepção vinha, naquele momento, de algumas manifestações pontuais pelo país, e citei entre elas a ocorrida em Marabá, aonde cerca de 200 pessoas promoveram um quebra-quebra no Tribunal do Júri da cidade paraense, contra a absolvição do pecuarista José Rodrigues Moreira, acusado de ser o mandante da morte do casal extrativista Maria do Espírito Santo da Silva e José Claudio Ribeiro da Silva, em maio de 2011, executado a tiros por denunciar extração ilegal de madeira e grilagem de terra.

Naquela mesma época já aconteciam, com o impulso das redes sociais, muitos protestos (não tão grandes como agora) contra a ascensão política de Marco Feliciano e de Renan Calheiros no Congresso Nacional, e contra declarações homofóbicas da cantora Joelma.

Nos casos de Feliciano e Calheiros ocorreram momentos tensos em Brasília entre manifestantes e forças de segurança, com uma aparente acomodação de forças depois e a permanência dos dois políticos em seus círculos de poder, já que nada se fez para tira-los de seus postos.

Digo aparente acomodação porque aquela mobilização não retrocedeu, houve talvez um recuo momentâneo nas ruas, mas a indignação permaneceu com um termômetro claro nas redes sociais.

E a realidade vinha com mais elementos para aquecer essa pólvora. A chegada da Copa das Confederações trouxe junto a divulgação de cifras astronômicas gastas nas construções dos estádios enquanto não há condições dignas de educação e saúde para a população, temos estradas péssimas e pagamos altos tributos. Mesmo escamoteada, a escalada da inflação é sentida no dia a dia e o aumento no preço da passagem do transporte coletivo foi o estopim para provocar manifestações que em poucos dias ganharam a dimensão que estamos vendo hoje, tanto no crescimento contínuo de adesões quanto à amplitude de temas que em última instância pedem uma limpeza nas esferas políticas e uma redefinição do país.

Também no texto anterior escrevi que as manifestações não significavam “uma incitação à violência, mas fazer valer um posicionamento firme contra as mais diferentes agressões aos direitos civis, à ética pública, à nossa condição de contribuinte que elege a classe política como representante do eleitor, à liberdade individual, enfim”.

E conclui assumindo uma dúvida sobre esse papel das redes como fomentadora de ações positivas, mas também trazendo o risco de arrebanhar “internautas que se deixam levar pela corrente sem verdadeiro conhecimento da causa, sem uma avaliação crítica do que está sendo debatido”.

“A depuração é parte do caminho e o tempo vai dizer qual a contribuição das redes sociais para essa postura mais afirmativa do brasileiro diante dos que insistem em manter velhas práticas de domínio da nossa sociedade”, encerrei naquela oportunidade.

Certo é que a mobilização virtual cria uma força interna que se configura facilmente nas ruas. Sabendo que todos vão estar lá as pessoas se sentem de antemão fortalecidas para comparecerem e se expressarem.

E aí surge o desafio do controle da linha tênue entre os manifestantes e os policiais que, em teoria, estariam ali para assegurar a ordem pública.

Mesmo que a polícia venha fazendo barreiras que limitam a distância entre as manifestações e os estádios de futebol onde acontecem os jogos da Copa das Confederações, a visibilidade mundial do torneio veio, sem dúvida, a calhar para atrair os olhos do exterior para as discrepâncias do Brasil. A ferida está aberta. Vejamos como será tratada.

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