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Júlio Assis

Por favor sem flash

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PUBLICADO EM 09/06/14 - 03h00

Por favor sem flash.

Quando sai do metrô na praça Cardeal Arcoverde, no Rio de Janeiro, próxima a Copacabana, me deparei com uma dessas estátuas vivas. O elemento trajava uniforme da seleção argentina de futebol. A única coisa diferente era uma peruca tipo o Coalhada do Chico Anysio. De resto parecia mesmo provocação. No braço curvado, segurava uma réplica da Copa do Mundo. Que ousadia! No chão, uma pequena caixa para quem quisesse deixar um troco. Eu passei perto e notei que ele não se portava muito estático. Imaginei que estava é meio em posição de alerta, pronto pra correr caso algum torcedor brasileiro mais exaltado aparecesse para lhe dar um chute nas nalgas.

Mas essa história não tem nada a ver com o flash. É que antes de pegar o metrô, depois de descer no aeroporto Santos Dumont, caminhei até o Museu de Arte Moderna (MAM) para ver a exposição do australiano radicado na Grã-Bretanha Ron Mueck, com suas esculturas que reproduzem figuras humanas num hiper-realismo de fato impressionante.

Cheguei no início da exposição, que aos poucos foi ficando cheia, com centenas de pessoas praticando aquilo de que se tem falado, de visitantes que não vão para ver a exposição, mas para fotografá-la com o aparelho celular. Nunca havia visto o fenômeno em tamanha proporção num espaço de média extensão, como o dedicado às obras de Mueck, em um único salão. Pessoas de todas as idades posicionavam seus aparelhos diante das obras ou fazendo fotos de amigos ou parentes próximos a elas. Era preciso ser rápido para conseguir ver as esculturas e mais difícil fazer isso sem ser encostado para dar espaço a um telefone fotográfico.

Os monitores, a única coisa que eles diziam era: “Por favor sem flash”, embora a mesma recomendação estivesse espalhada pelas paredes. Nem usavam mais a vírgula: “Por favor, sem flash”. De tanto falarem, virou direto mesmo: “Por favor sem flash”. Daí a um tempo a impressão é que eles já estavam pedindo para os visitantes sem muita convicção, apenas para cumprir ordens, tal a ineficácia da regra.

Todos os visitantes levaram Mueck para casa no telefone celular, assim como pode-se ver as obras na internet, mas duvido que a maioria parou para ver com calma as minúcias da construção das esculturas (as expressões dos rostos, as dobras dos corpos, os pelos, os movimentos) e o conjunto que faz dele um artista singular na retratação do humano que somos.

Por favor sem flash.

Um casamento muito interessante no museu é que a exposição de Ron Mueck, que terminou no dia 1º último, coincidiu com a mostra que permanece em cartaz da coleção Gilberto Chateaubriand, que é um grandioso acervo da arte brasileira do século XX.

Assim, meio que no embalo da caminhada, os estudantes e visitantes em geral chegavam ao andar superior do MAM, e, depois de Ron Mueck, se encontravam com obras de Tarsila do Amaral, Portinari, Djanira, Guignard, José Pancetti, a até artistas de gerações mais recentes, como Hélio Oiticica, Waltercio Caldas, Arlindo Daibert, Cildo Meireles. Muitas obras que estamos habituados a ver em livros históricos sobre a arte brasileira estão lá ao vivo.

E pensar que a coleção de Gilberto Chateaubriand começou por acaso. Como ele conta, em 1952 Pancetti deu a ele um quadro de presente. Foi o bastante para que Gilberto começasse a se interessar por arte até se tornar um dos principais colecionadores do país, hoje com um acervo de cerca de 7.000 obras.

A arte, entre inúmeros atributos, tem esse poder de virar a cabeça de homens como Gilberto Chateaubriand, Bernardo Paz, Marcantonio Vilaça e outros que passam a se dedicar a ela e constroem importantes acervos. Sabe-se lá o que seria das obras que eles adquirem, sem suas iniciativas. De Marcantonio, aliás, que morreu precocemente no ano 2000 aos 37 anos, pude presenciar a herança que permanece pulsante ao acompanhar, nessa viagem ao Rio, o lançamento do 5º Prêmio Marcantonio Vilaça, realizado pela CNI Sesi Senai, que estimula a arte brasileira, assim como ele o fazia. Os que conheceram esse pernambucano testemunham que ele tinha uma paixão desmedida pela arte.

E a estátua argentina? Deixe que ela aguarde lá.

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