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Laura Medioli

Entre quatro portas

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jhsajas
PUBLICADO EM 05/08/18 - 03h00

Quando preciso ir a lugares complicados para estacionar, normalmente vou de Uber, que, querendo ou não, é uma mão na roda. Conversadeira como sou, logo me inteiro da vida dos motoristas. A grande maioria é ex-alguma coisa: ex-engenheiro, ex-comerciante, ex-vendedor, ex-corretor de imóveis e por aí vai.

Resumindo: desempregados que encontraram no Uber a possibilidade de continuar na ativa, enquanto novas oportunidades, dentro de suas respectivas áreas profissionais, não aparecem.

Um amigo meu viu sua fábrica de móveis modulares desmontar-se em meio a uma crise nunca vista. Fechou o negócio, antes que as coisas piorassem e não tivesse dinheiro sequer para o acerto com os funcionários. Casado, com dois filhos em idade escolar, transformou seu carro em Uber e, aos trancos e barrancos, foi mantendo sua dignidade e algumas das contas em dia. Até que, trabalhando também à noite para conseguir honrar os compromissos, foi assaltado. Levaram seu carro, seu celular e por muito pouco não levaram sua vida. Os amigos se cotizaram numa vaquinha e conseguiram para ele outro veículo, não tão bom quanto o que foi roubado, mas de grande utilidade. Ele continua nas ruas, não sabe até quando, espalhando currículos em cada canto da cidade, que hoje conhece como a palma da mão.

Já viajei com um motorista que, com pouco tempo de “carro”, estava literalmente perdido. Daqueles que, se bobeasse, não saberia nem chegar ao Mineirão. Eram seus primeiros dias de trabalho, e logo percebi sua dificuldade no manuseio do aplicativo de localização.

Tranquilizei-o dizendo que o ajudaria. Liguei o Waze do meu celular, e chegamos. Descobri que o rapaz veio do interior, a falta de emprego e perspectivas o afastara de sua cidade. Virou motorista.

Para não desanimá-lo, disse-lhe que com a maioria dos motoristas novatos era assim mesmo: no início se confundiam, mas com o tempo tiravam de letra. Saí desejando-lhe boa sorte.

Na semana passada, indo de um compromisso ao outro, peguei o primeiro táxi que encontrei. A motorista, uma senhora simpática e falante, em pouco tempo me cativou. Com 60 anos, mais de dez dirigindo, me diz que não pode parar.

Conversa vai, conversa vem, perguntei se tinha netos, e ela, com certa emoção, disse-me que nunca se casou e nunca teve filhos. Conta que perdeu a mãe muito cedo e, por ser a mais velha de uma turma de cinco ou seis irmãos, acabou assumindo a responsabilidade.

Ao passarmos pela Cidade Jardim, me explica em pormenores como era o bairro antigamente.

– Aqui morava a Júnia, aquela que morreu num desastre de helicóptero.

– Aqui era a casa dos... – e me diz o nome de tradicional família mineira.

E entre casas e casos, vamos nos distraindo.

– Como você sabe disso tudo? – pergunto divertida e curiosa.

Ela explica que nasceu e cresceu “logo ali!”, onde existia a antiga favela do Querosene. E me fala das dificuldades vividas com um pai viúvo e um bocado de crianças pequenas. Depois, com os irmãos tomando seus rumos, foi cuidar do pai, já velho e doente. E assim passou sua existência, cuidando de todo mundo. Provavelmente, sem muito tempo para ela mesma.

Mais tarde, ao sair do meu compromisso, caminho até o ponto de táxi da esquina e, surpresa, vejo que a motorista também era mulher.

Peço para me deixar no shopping onde estacionei meu carro. Um percurso pequeno, mas que nos deu tempo para uma boa conversa.

Já era noite, e lhe pergunto se tinha o costume de trabalhar naquele horário. Diz que não, normalmente pegava o serviço mais cedo para voltar mais cedo. Mas, naquele dia, precisaria trabalhar até tarde, para cumprir sua meta diária, pois passara a manhã curtindo a sua filha de 13 anos, que estava de férias.

E enche a boca para falar dos filhos. Tem dois. O mais velho, jovem, trabalhador, nunca lhe deu problemas. A garota, adolescente, já é mais “saideira”, mas sempre sob as asas da mãe coruja, que gosta de conhecer as amigas de perto e os lugares que frequentam – preocupações que muitas das mães de adolescentes carregam. 

Na hora de nos despedirmos, dou a ela mais que o dobro do que custou a corrida:

– Isso é para você voltar mais cedo, curtir mais a sua filha... 
E ela, surpresa, me devolveu o seu maior sorriso. Ganhei o dia.

No último dia 25, comemorou-se o Dia do Motorista. A esses profissionais, o meu respeito e carinho.

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