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Leonardo Boff

A crise política brasileira: nem chorar, nem rir, mas entender

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PUBLICADO EM 01/04/16 - 03h10

Há uma dilaceração na sociedade brasileira que não pode continuar, pois comprometerá a nossa frágil democracia e a convivência minimamente pacífica. Tal fato se deriva da onda de ódio, intolerância e abuso por parte do Judiciário, que perdeu seu centro – a imparcialidade – e, em alguns casos, revela traços inegáveis de perseguição.

A campanha eleitoral de 2014 deslanchou um processo de rejeição e de inconformismo. Houve erros em ambos os lados. Todos, de alguma forma, foram vítimas de marqueteiros, que inventam, quando não distorcem, em favor de seus candidatos, que lhes pagam milhões para fazer um trabalho ambíguo e, não raro, sujo.

As eleições foram democráticas, mas dentro desse quadro maldoso. No entanto, num regime democrático, ganha quem tem a maioria dos votos válidos. Normalmente, quem perde, mostra elegância: vem a público, até por respeito aos eleitores, felicitar o vencedor e lhe desejar bons votos. Isso não ocorreu. O candidato da oposição não reconheceu a derrota. Ao contrário: tentou a recontagem dos votos e foi vencido; tentou impedir a diplomação e foi rejeitado; tentou impedir a tomada de posse e não conseguiu; continuou com um processo de impeachment que ainda corre, e não é líquido que prospere.

Com isso, deu-se início a uma estratégia oposicionista de tornar impossível governar o país. Coincidentemente, estourou a corrupção da Petrobras, em que grande parte dos partidos estava comprometida. Mas aqui tornou a vigorar a politização da Justiça. Todo o peso das acusações caiu, praticamente, sobre o PT.

Os milhões da corrupção por parte do PT são tão escandalosos que suscitam, com razão, a indignação de qualquer pessoa sensata. Tal fato criou desalento por parte dos membros do partido e revolta e vontade de propor um impeachment contra a presidente por certos setores da população. De repente, todo o Partido dos Trabalhadores era e é corrupto, o que não é verdade. Ao arrepio do direito, bastavam suspeitas para o juiz mandar prender os suspeitos, antes mesmo de ouvi-los ou confirmar a objetividade das delações. Assim, assistimos, estarrecidos, ao excesso judicial de levar sob vara o ex-presidente Lula a interrogatório, quando a sensatez aconselhava fazer como se fez com outro ex-presidente, FHC, que foi ouvido em casa. A culminância chegou às raias da evidente insensatez e da falta da percepção das consequências sociais violentas quando um juiz e três jovens procuradores, parcos de experiência e mais ainda de cultura, decretarem a prisão preventiva de Lula.

Nessa atmosfera acirrada, cabe pedir moderação para salvaguardar a democracia e não favorecer comportamentos fascistas. Mas faz-se mister tomar em conta um dado esclarecedor. A oposição, cuja base social é constituída pelas elites econômicas e intelectuais, nunca aceitou que um metalúrgico assumisse o mais alto cargo da nação. Com o PT triunfou um projeto que conseguiu o que nunca ocorrera antes: incluir milhões na cidadania, permitir a milhares chegar à universidade, dar-lhes dignidade em sua casinha com luz elétrica.

O conflito de raiz é este: os estratos tradicionais e poderosos não aceitam essa inflexão na história do Brasil em favor dos humilhados e ofendidos. Querem-nos como seus serviçais baratos, exército de reserva.

Nunca pertenci ao PT, mas sempre apoiei sua causa. O essencial da Teologia da Libertação é a opção pelos pobres contra sua pobreza e em favor da justiça social. Por isso, apoiei e continuo a apoiar o PT, porque o vejo como um instrumento para realizar esse sonho maior.

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