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Paulo Paiva

A greve: réquiem para um governo com morte cerebral

A antevisão dessa gestão está em Machado de Assis

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PUBLICADO EM 06/06/18 - 03h00

Os episódios recentes expõem a gravidade da situação de um país à deriva, desgovernado e sem perspectiva. O governo de Michel Temer, com morte cerebral, expira, abandonado, em seu leito. A sua volta, apenas os poucos confrades, familiares da intimidade política que compartilharam a trajetória de Temer, de deputado a presidente da República, do antigo PMDB ao novo-velho MDB. O silêncio domina o ambiente lúgubre. Olhares tímidos transpassam as janelas do palácio à procura de sinais de vida e de recuperação. 

Em outubro de 2015, o PMDB, partido da base do governo Dilma Rousseff, presidido por Temer, ocupando a vice-Presidência e vários ministérios, divulgou uma “Ponte para o Futuro”, cujo conteúdo consistia de proposta alternativa e diametralmente oposta à política desenvolvida pelo governo de que participava.

Em dezembro de 2015, em carta dirigida à ainda presidente Dilma, Temer, então vice-presidente, disse elegantemente em latim: “Verba volant, scripta manent”, isto é, “as palavras voam, os escritos permanecem”. Naquela ocasião, registrou sua lealdade à presidente, com o cuidado de qualificá-la como “institucional, pautada pelo art. 79 da Constituição Federal”. Terminou expressando sua convicção de que a presidente não tinha confiança nele nem no PMDB, “e não terá amanhã”. Os escritos permanecem.

Se pautadas pela ética, pela lealdade e pela coerência, as consequências dos dois atos seriam a renúncia de Temer e a saída do PMDB da base do governo. Não foi o que ocorreu. Selou-se a traição.

Em abril de 2016, antes ainda da aprovação pela Câmara de pedido de abertura do processo de impeachment da presidente Dilma, o vice-presidente deixou vazar um áudio que teria sido enviado, “por engano”, a seus correligionários com o esboço de um pronunciamento à nação do futuro presidente.

Temer chegou, por fim, ao poder com a nódoa da traição e da deslealdade.

Assumindo a Presidência em ambiente de crise política, econômica e moral, Temer indicou compor um ministério de notáveis, como havia feito Collor em momento também grave. Contudo, optou por montar um gabinete de notórios. Já no início, vários de seus ministros foram afastados por indícios de envolvimento em corrupção.

Desde maio do ano passado, o presidente vem se equilibrando no cargo. Já enfrentou dois pedidos de abertura de impeachment. Jamais conquistou a confiança da população.

O movimento dos caminhoneiros, com evidências de desobediência civil, fazendo refém a população, é a resposta aos descaminhos do governo Temer, já sem cérebro, sem credibilidade e sem autoridade. Mesmo com os impactos negativos na vida das pessoas, viu-se claro apoio popular à obstrução ilegal das estradas. É a condenação final do governo desacreditado. 

Repetindo o que certa vez escrevi sobre o final do governo Dilma, encontro a antevisão também desse governo no livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis: “Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, o colocam em cima e transpassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um...” Amém.

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