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Paulo Paiva

Pontos e vírgulas que ascendem do credo do capitão Virgulino

Como podem renascer antigas relações e velhas concepções

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PUBLICADO EM 16/01/19 - 03h00

O ano passado ficou marcado por vários episódios e fatos importantes da história brasileira. A Constituição Federal completou 30 anos; o Ato Institucional nº 5, 50 anos; e a morte do capitão Virgulino, o Lampião, 80 anos.

Dois mil e dezoito registrou também mudança radical na orientação política no Brasil. A eleição do capitão Bolsonaro interrompeu o ciclo PSDB-PT, que dominou o país nos últimos 25 anos, e poderá iniciar outro ciclo, desta vez de predominância da direita conservadora.

Entre a aventura do capitão Virgulino e a determinação do capitão Bolsonaro muita coisa aconteceu neste país. Quantas transformações, quanto progresso. O Brasil prosperou, ficou mais rico; a população concentrou-se nos centros urbanos; novas tecnologias foram incorporadas à produção; novas descobertas científicas melhoraram a qualidade de vida; mudaram-se os costumes; e o avanço das comunicações integrou o mundo. Informações chegam a todo lugar como avalanches. Hoje, tudo se sabe, tudo se registra em tempo real.

Celebrando os 80 anos do assassinato de Lampião, dois livros bibliográficos foram editados no ano passado. Frederico Pernambucano de Mello publicou “Apagando o Lampião”, e Wagner G. Barreira, “Lampião & Maria Bonita: Uma História de Amor e Balas”. São textos estimulantes que rememoram o contexto e as tramas políticas, sociais e econômicas que envolveram o cangaço na vida do sertão profundo do Nordeste, na primeira metade do século XX.

Barreira lembra que o livro mais lido naquela região até então era o “Lunário Perpétuo”, escrito pelo matemático, astrônomo e naturalista espanhol Jerónimo Cortés, cuja primeira edição saiu em 1594. A obra, um calendário lunar, ajudava o cotidiano das pessoas com sugestões, por exemplo, sobre agricultura, saúde e a vida prática. Nenhum dos avanços a partir da idade moderna fazia parte do conhecimento no sertão. Na equipe de Bolsonaro, há gente importante que, ainda hoje, acredita que as descobertas científicas são uma mistificação, como falou a ministra pastora, Damares Alves, negando a Teoria da Evolução das Espécies.

A religião era muito influente no governo e presente nos corações e nos lares dos nordestinos, inclusive de Lampião e de seus cangaceiros. Padre Cícero Romão, um líder religioso, social e político autoritário que viveu na mesma época, tinha muita ascendência sobre o líder maior do cangaço. Foi o padre quem convocou Lampião e seu bando para eliminar a coluna Prestes, de passagem pelo Nordeste. Virgulino teve papel destacado na expulsão dos comunistas e recebeu por determinação do padre Cícero o título de capitão do Batalhão Patriótico. O comunismo continua uma ameaça viva no entendimento do governo do outro capitão, como creem o presidente e sua equipe.

Assim como entre Igreja e Estado, eram evidentes as relações entre banditismo e política. Um ex-governador de Sergipe foi um dos protetores de Lampião, que recebia também apoio de grandes fazendeiros. Os conluios e negócios entre proprietários, agentes públicos e cangaceiros eram comuns lá, como são hoje cá as relações promíscuas entre criminosos e políticos. O capitão Bolsolnaro veio para acabar com elas.

Lampião cria em fazer justiça pelas próprias mãos. Algo parecido à atual justificativa para a posse e o porte de armas.

A similitude entre crenças e ações do tempo do cangaço e de hoje mostra como podem renascer em novas roupagens antigas relações e velhas concepções, que havíamos pensado terem sido já eliminadas pela bala que apagou Lampião. 

 

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