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Paulo Paiva

Que Brasil será esse a esperar as crianças de hoje?

Falhas na educação e violência sufocam o futuro dos pequenos

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PUBLICADO EM 12/09/18 - 03h00

Correndo em torno da barragem Santa Lúcia, pela manhã, eu me deparo com dezenas de crianças, com sorrisos nos rostos, caminhando de suas casas, situadas na comunidade que se ergueu nas encostas do morro de onde o sol diariamente anuncia um novo dia de esperança, para suas escolas, que ficam do outro lado da avenida Artur Bernardes. São crianças que estão cursando o ensino fundamental, certamente em escola pública. Imagino não o Brasil que quero para essas crianças, mas o Brasil real que elas encontrarão no futuro. Que Brasil será esse?

Que se pode esperar das escolas que não estão conseguindo qualificar seus estudantes? Na avaliação do MEC, segundo o Saeb, em 2017, no nono ano do ensino fundamental somente 2,9% dos alunos conseguiram proficiência em português, e apenas 4,5%, em matemática. No terceiro ano do ensino médio, a situação é ainda pior. Em português, não mais de 1,6% dos estudantes conseguiram proficiência, e em matemática, apenas 3,5%. Indago: quantas dessas crianças se salvarão dessa tragédia?

Daqui a 15 ou 20 anos, com o parco conhecimento adquirido nas escolas, seu único capital, tentarão um emprego ou uma oportunidade empreendedora. Mas com que treinamento, se as escolas não oferecem formação adequada? E provavelmente o currículo escolar já seja, em parte, inútil para o país que está sendo tomado pelas inovações digitais que oferecem oportunidades, mas também geram incertezas e medo. Como tirar o melhor proveito das transformações digitais para promover a inclusão social neste país? Quantas dessas crianças terão acesso às oportunidades abertas pelo novo mundo digital?

Que se pode esperar do futuro do país diante de tanta beligerância e violência? A intolerância e o ódio tomam conta das redes sociais, dos jogos de futebol, de simples conflitos nas mesas de bares e das divergências políticas. Jovens, principalmente do sexo masculino, têm índices de morte violenta semelhantes aos dos que vivem em regiões de guerra, principalmente os jovens de famílias de renda mais baixa. Quantas dessas crianças sobreviverão à violência que dizima tantos jovens?

Que se pode esperar do futuro de um país com tanta desigualdade? Na classificação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que associa a renda per capita com indicadores de educação e saúde, o Brasil está na 79ª posição. Vale lembrar, que pelo tamanho do PIB, esta é uma das dez maiores economias do mundo. A desigualdade não é resultado fortuito do acesso às oportunidades. Ao contrário, é predeterminada. Filhos de famílias de renda baixa têm maior probabilidade de serem pobres ao longo da vida; a discriminação por raça e gênero também deixa para trás os que pertencem a esses grupos, dificultando-lhes as oportunidades, que jamais foram iguais. Quantas dessas crianças terão a sorte de romper as barreiras da discriminação?

Essas são dimensões deste país injusto, que fecha as portas para a maioria de suas crianças.

Em poucas semanas o Brasil irá às urnas para escolher os próximos governantes, no final de uma eleição singular, que se arrastou sobre a indiferença e a resistência da maioria dos eleitores. As campanhas foram movidas pelo ódio, pela violência, por ataques pessoais, mentiras, traições e cinismo. Os sonhos das crianças jamais sensibilizaram os corações dos candidatos.

Quem realmente sabe o que os postulantes a presidente pensam sobre o futuro do Brasil?

Temo que, como no passado recente, das urnas não surjam iniciativas e ações para acalentar as esperanças das crianças, que encontro toda manhã.

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