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Paulo R. Haddad

Ecologia integral: um paradigma de desenvolvimento para o século XXI

A exploração do planeta já excedeu limites aceitáveis

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PUBLICADO EM 10/08/18 - 03h00

No próximo mês, será lançado o livro de minha autoria intitulado “Uma Introdução à Economia do Século XXI: Valor e Capital”. Nesse livro defendo, com argumentos teóricos e narrativas de experiências históricas, a necessidade de um novo paradigma de desenvolvimento para o século XXI, baseado na concepção de ecologia integral. A busca de um novo paradigma se faz presente, uma vez que as teorias dominantes do processo de desenvolvimento de um país ou de uma região estão sendo incapazes de explicar e predizer importantes indicadores socioeconômicos e socioambientais sobre o funcionamento da economia. Especificamente, a insatisfação nasce quando se observa que a crise fiscal e a crise ambiental têm avançado concomitantemente, apesar do intenso progresso tecnológico da humanidade, sem que as políticas públicas tenham condições de revertê-las fundamentadas nos padrões científicos prevalecentes.

Para a ecologia integral, conceito estruturante da encíclica “Laudato si’”, do papa Francisco, o ambiente humano e o ambiente natural se deterioram conjuntamente, e não se pode combater a degradação ambiental a não ser que se atinjam as causas da degradação social e humana. Uma ilustração histórica: em torno de 1960, a Mata Atlântica estava razoavelmente preservada no Estado de Minas Gerais; nos anos seguintes, foram instaladas cerca de 200 serrarias entre Muriaé e Governador Valadares para atender a demanda de madeira para a construção civil, para as guserias, para a indústria moveleira etc.; concomitantemente, ocorreu intenso desmatamento da Mata Atlântica para a formação de pastagens no leste do Estado. Consequências: a destruição dos ativos e dos serviços ambientais desse bioma (assoreamento dos rios, perda da fertilidade dos solos etc.), implicando o empobrecimento dos municípios, como resultado da baixa produtividade dos recursos naturais regionais. Hoje, muitos desses municípios são considerados economicamente deprimidos, sobrevivendo graças às políticas sociais compensatórias para as famílias e às transferências fiscais do governo federal para as prefeituras locais.

Ainda não conseguimos adotar um modelo circular de produção capaz de preservar os recursos naturais para as gerações presentes e as futuras, limitando ao máximo o uso de recursos não renováveis, moderando seu consumo, maximizando seu uso eficiente, reúso e reciclagem. Não é possível manter e reproduzir o nível atual de consumo dos países desenvolvidos e dos segmentos mais ricos da sociedade, nos quais os hábitos de desperdício e de descarte atingiram níveis sem precedência. A exploração do planeta já excedeu limites aceitáveis, e ainda não se resolveram os problemas da pobreza e da miséria de muitos povos e grupos sociais. 

O cidadão brasileiro tem percebido a crise ambiental em virtude das mudanças climáticas e da crise hídrica em muitas regiões do país. Não associa, contudo, essa crise com a necessidade de mudanças do estilo de vida, dos modos de produção e dos padrões de consumo. Muitas das pessoas pobres vivem em áreas particularmente afetadas por fenômenos relacionados ao aquecimento global, e seus meios de subsistência são amplamente dependentes das reservas naturais e dos serviços ecossistêmicos, como a agricultura, a pesca e a silvicultura.

Na “Laudato si’”, papa Francisco afirma também que os efeitos mais graves de todos os ataques ao meio ambiente são sofridos pelos pobres e que “temos de ter consciência de que uma abordagem ecológica deve sempre se tornar uma abordagem social, deve integrar questões de justiça nos debates sobre meio ambiente, de tal forma a ouvir ambos o grito da terra e o grito dos pobres”.

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