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Ricardo Sapia

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Frequentemente circulam notícias sobre mulheres vítimas de violência doméstica que preferem os agressores aos filhos

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PUBLICADO EM 07/12/18 - 03h00

Frequentemente circula na imprensa e nas redes sociais notícias sobre mulheres vítimas de violência doméstica que preferem os agressores aos filhos, gerando medidas protetivas em relação às crianças e repassando a guarda para o Estado. Para quem trabalha nessa área isso não é novidade.

A dependência dessas mulheres pelos companheiros que as agridem é, muitas vezes, o motivo dessa preferência. Falamos de dependência emocional, mas também financeira. Muitas não têm condições de sobreviver sem a “ajuda” do companheiro e acabam se sujeitando às agressões.

Por outro lado, estão tão fragilizadas que acreditam em tudo o que o agressor diz e veem como verdade absoluta. É, portanto, normal que uma mulher que viveu toda a vida ouvindo do homem que “não vale nada”, que “sem ele não será ninguém”, que a “mata se a vir com outra pessoa”, que lhe “vai tirar os filhos e destruir toda a sua vida” se sujeite aos maus-tratos, acreditando que não tem outra opção. Que não existe outra saída. Por esse motivo, mais vale proteger os filhos, acreditando que podem ter uma vida melhor, longe das agressões a que assistem todos os dias, mesmo que isso implique estar longe.

É verdade que também existem mulheres que preferem verdadeiramente os companheiros aos filhos. Nesses quase 30 anos de jornalismo, já ouvi coisas que até Deus duvida. Situações em que as mulheres acusam as próprias filhas que foram abusadas sexualmente pelos companheiros.

Quem trabalha nessa área precisa ter a capacidade de não julgar as decisões das vítimas e continuar ali para a próxima vez que voltar a acontecer uma agressão. É sabido que a violência doméstica acontece em ciclos, que se divide em três fases.

A fase do aumento da tensão: as tensões acumuladas no dia a dia, as ofensas, os insultos e as ameaças feitas pelo agressor, que criam na vítima uma sensação de perigo iminente. A fase da agressão: em que o agressor maltrata física e emocionalmente a vítima. Esse tipo de mau trato tende a aumentar na sua frequência e intensidade. E, por fim, a fase da lua de mel: o “arrependimento”, a promessa de que “não voltará a acontecer”, o pedido de desculpa, mas também, em alguns casos, a pressão, que faz a vítima acreditar que tudo só aconteceu porque ela provocou, mas que não se repetirá.

É, portanto, necessário compreender tudo isso e todos os fatores associados ao fenômeno da violência doméstica, para podermos compreender as decisões tomadas ou a falta de opções das vítimas. Não raras vezes, ouvimos pessoas desacreditarem as vítimas pelo fato de o agressor ser uma pessoa “socialmente correta”.

E é uma característica desses agressores. Serem “sedutores” e estarem socialmente muito bem integrados. Fazem com que as vítimas sejam desacreditadas e criticadas. Por vezes, até acusadas de “terem o que merecem”.

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