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Roberto Andrés

Era uma vez um leitão

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Placa instalada na rua Padre Belchior se tornou um micro-parlamento informal e popular, de debate das cidades
PUBLICADO EM 14/06/18 - 03h00

“Era uma vez um leitão que parecia manso, mas era bravo e sujo – muito sujo. Quando enchia, entrava até na casa dos outros. O córrego do Leitão não respeitava nada. Hoje o Leitão está por baixo dessa nova e ampla avenida, que vai ajudar a resolver os nossos problemas de trânsito. Cenas de enchentes, você nunca mais verá.”

As frases acima são ditas por um narrador de voz grave, estilo Cid Moreira, em um vídeo veiculado pela Prefeitura de Belo Horizonte na década de 1960. Naquele momento, a Prefeitura tocava o projeto NOVA BH 66, que preparou a cidade para o progresso rodoviário que viria.

Córregos foram cobertos, árvores foram cortadas, os trilhos do bonde foram sepultados, mais de um milhão de metros quadrados de vias foram asfaltados. O córrego do Leitão foi ainda transformado em um personagem malvado, sujo e feio, nos materiais de divulgação da Prefeitura. Mas, na verdade, a história era outra.

Era uma vez um Leitão que serpenteava límpido por um vale repleto de árvores frondosas e sabiás cantantes. Atravessava uma grande fazenda, passava pelas franjas de um pequeno arraial e desembocava no ribeirão Arrudas. Esse Leitão abrigava peixes, fornecia água para as pessoas e era lugar de brincadeiras infantis.

Um dia, apareceu naquelas paragens uma espécie de Lobo Mau: a comissão construtora da nova Capital de Minas Gerais. Esse pessoal não respeitava nada e logo começou a jogar esgoto no córrego, retificar seu leito em canais de concreto, construir nas suas áreas de cheia.

O Leitão, coitado, seguiu sua vida de rio: diminuir na seca, vazar nas chuvas. Só que agora as várzeas em que o córrego se espalhava alegremente em tempos melhores estavam ocupadas por prédios, casas, ruas. E suas águas estavam contaminadas pelo cocô dos novos moradores – na pressa de inauguração da capital, deixou-se para depois o planejado sistema “separador”, que tiraria o esgoto dos rios.

Tudo isso levou às situações lastimáveis que o vídeo da Prefeitura expunha, mas é preciso dizer que a promessa de que “cenas de enchente, você não vai ver nunca mais”, obviamente não se cumpriu. Não foram poucas as vezes que o córrego encheu, vazando pelos bueiros, transformando a avenida Prudente de Morais em um piscinão.

Talvez aquela prefeitura do governo militar, um tipo de Lobo Mau armado com a espingarda do caçador, acreditasse que bastava cobrir o córrego para que ele deixasse de existir. Mas as águas não funcionam assim. Ademais, com o crescimento da cidade, a impermeabilização do solo e a canalização dos afluentes, a água das chuvas passou a chegar cada vez mais forte e rápida aos fundos dos vales.

Mas o Leitão carrega, também em seu leito, muitas histórias por cumprir. Em um sábado ensolarado no outono de 2013, uma placa de obra, dessas que costumam anunciar viadutos e trincheiras, apareceu na esquina da rua Padre Belchior, onde o córrego passa escondido. A placa mostrava uma imagem de um córrego limpo, aberto, onde peixes, plantas, pedras, bancos, escadarias e ciclovias passariam a conviver com a vida pulsante do centro.

A obra custaria 6 milhões de reais e ficaria pronta antes da Copa do Mundo. Seria realizada em parceria da Prefeitura com o Governo Federal, através dos Ministérios do Meio Ambiente e da Pesca. A placa atraiu atenção da imprensa, de moradores e passantes do centro. Infelizmente, a Prefeitura não assumiu a proposta e mandou retirar a placa da rua.

Mas alguma coisa ficou para trás. Naquela prosaica esquina do centro da cidade, durante um final de semana, o que emergiu foi um micro-parlamento popular e informal. Cada um dava sua opinião e um assunto que andava esquecido, o córrego do Leitão, ressurgiu como tema urgente. A utopia de uma democracia radical e de um debate honesto sobre o futuro das cidades se concretizou naquelas poucas horas de confusão.

Em 2018, o Leitão volta à baila. No próximo domingo, 17, uma cicloexpedição permitirá às pessoas visitarem esse córrego de leito suntuoso, suas nascentes maltratadas, suas águas escondidas. Que os pedais dos ciclistas ajudem a imaginar outros futuros possíveis para um Leitão que já foi limpo, alegre e saudável – e precisa voltar a ser.

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