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Sandra Starling

A geopolítica em um casamento real

Em pequenos detalhes se veem representações da grande política

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PUBLICADO EM 06/06/18 - 03h00

Passei aquele sábado inteirinho tomando “overdose” do casamento de Harry e Meghan.

Concluí o óbvio: na realeza britânica, também predomina o pragmatismo político. Tudo pareceu ter dois objetivos: afirmar o prestígio da família real britânica e aprofundar os laços com os principais parceiros do Reino Unido, em face do isolamento advindo do Brexit. Estamos a falar dos Estados Unidos, da União Europeia e da Comunidade Britânica das Nações, a Commonwealth.

Quem se recorda da bravura da própria Elizabeth, durante a Segunda Guerra Mundial, alistando-se como mecânica, enquanto seus pais não abandonaram o Palácio de Buckingham, em Londres, nos piores momentos dos bombardeios alemães; e quem acompanhou a pompa e a circunstância do casamento do herdeiro, Charles, com a princesa Diana, testemunha que a família sempre se manteve como um baluarte em sua própria defesa, combinando tradição e “aggiornamento”. Tudo isso passou por um abalo terrível na maneira como a rainha se portou na morte de Diana. Quem diria: resgatou-a do naufrágio o primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, que chegou a vislumbrar, na revolta popular, os albores de uma revolução republicana. Na sequência, outro revés: o casamento do príncipe de Gales com Camilla Parker Bowles, que teve de se contentar com o título de duquesa da Cornualha. 

Harry, com sua irreverência e alegria incontidas, transformou-se no queridinho de todos os súditos. É hoje quem detém a maior popularidade no Reino Unido. A sorte fez com que ele se enamorasse de uma afrodescendente linda, simpática e norte-americana! A monarquia resolveu surfar no encantamento e, assim, elevar seu prestígio pelas circunstâncias. Assimilou o sermão do reverendo Michael Curry, com suas menções à escravidão promovida pelos britânicos, desde a ocupação da Virgínia, no século XVII, a Martin Luther King, passando pelo polêmico católico jesuíta Teilhard de Chardin. Aceitou que o soul “Stand by Me”, já cantado por sir John Lennon, o cavaleiro que emigrou para os EUA, ecoasse nas belíssimas vozes de um coral gospel pela nave da capela de São Jorge, em Windsor. 

O vestido da noiva, vale lembrar, foi encomendado a uma costureira da casa Givenchy, da França. É que William, o Conquistador, foi, antes de rei da Inglaterra, duque da Normandia. Harry e seu irmão, por seu turno, chegaram à igreja a bordo de um Mercedes-Benz. Poderiam ter ido de Rolls-Royce ou Bentley. Mas a oportunidade recomendava que também se devotasse uma reverência à Alemanha. Afinal de contas, os Windsor, até o início da Primeira Guerra Mundial, eram conhecidos como uma dinastia alemã, os Sachsen-Gotha und Corburg.

Um toque final: o véu da noiva foi bordado com 53 flores típicas de cada um dos países da Commonwealth. Tudo para lembrar que a Índia, após rebelar-se e tornar-se independente e republicana, sugeriu que se formasse uma Comunidade Britânica das Nações, cujo primeiro chefe seria George VI, o bisavô de Harry.

Em pequenos detalhes se veem representações da grande política.

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