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Sandra Starling

Lembranças de São Bernardo do Campo

O “encantador de serpentes” precisa ter gente a sua volta

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PUBLICADO EM 11/04/18 - 03h00

Estive por duas vezes em São Bernardo do Campo.

A primeira, no dia 11 de fevereiro de 1980, em seguida à eleição de Lula como primeiro presidente do recém-fundado Partido dos Trabalhadores. Aguardei na antessala do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC por muitas horas porque Lula dava uma coletiva para correspondentes estrangeiros. Fui lá para protestar porque, na véspera, quando eu defendia, em nome do PT de Minas Gerais, nossa proposta de estatuto, ele – que nada ouvira – adentrou o plenário e em voz alta gritou: “Os 11 votos de São Bernardo são para a proposta de Osmarzinho”. Aquilo fez meu sangue ferver: que partido democrático era aquele que estávamos fundando e no qual alguém (e não se tratava de qualquer um) arvorava-se em decidir e ainda falar pelos companheiros contrariamente a algo que não conhecia?

Quando pude entrar na sala de Lula, falei tudo que me veio à cabeça sobre a atitude dele e me retirei de lá. Tomei de volta um ônibus para a cidade de São Paulo.

Na segunda vez, de carona com um companheiro do jornal alternativo “Em Tempo”, estive em São Bernardo em 19 de abril de 1980, dia em que Lula foi preso com base na Lei de Segurança Nacional. O estádio da Vila Euclides regurgitava de gente. Pelas ruas também iam e vinham, ao que parece, todos os moradores daquela cidade metalúrgica.

Depois estive com Lula em minha casa, na rua, em restaurantes, em cima de caminhão e depois de carros de som por muitos e muitos anos.

Em 2009, quando ele interveio no PT de Minas, desconhecendo o resultado de uma prévia entre Patrus e Pimentel (ganha por este), e determinou que Hélio Costa seria o candidato a governador em 2010 para fortalecer uma ampla aliança, capaz de alavancar o nome da mineira Dilma Rousseff – que quase ninguém aqui conhecia – para ser sua sucessora, deixei de vez o PT, criticando profunda e especialmente a aliança com o atual MDB e a escolha de Michel Temer para vice-presidente.

O resto já virou história. Há anos me recolhi da vida pública. Nunca mais me filiei a partido algum.

No fim de semana, acompanhei o discurso de Lula, diante do sindicato de São Bernardo, onde se refugiou para não cumprir a ordem de prisão do juiz Sergio Moro.

Mesmo que a ele seja reservada uma sala “de Estado-Maior” – sabe-se lá o que isso quer dizer –, sei, por conhecer bem Lula, que ele vai sofrer muito na prisão. O “encantador de serpentes” precisa ter gente a sua volta, precisa soltar sua verve incomparável, sobretudo quando se dirige a grandes multidões. Sabe como poucos falar para o povo. Traduz como ninguém o senso comum em que as maiorias vivem mergulhadas e hipnotizadas para que a sociedade capitalista em que vivemos possa moer-lhes a carne e adormecer seus cérebros. Cada um, entregue a si mesmo, vive de pequenos enganos, sonhos alimentados pelas novelas da mesma TV Globo que tanto rejeitam nos palanques. Cada um tem que cumprir seu papel de autômato, dia após dia.

Espero que, de sua sala em Curitiba, Lula possa repensar sua própria vida e finalmente descobrir onde foi que errou.

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