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Sandra Starling

O filho imortal de Trier

Poucos leram Marx: querem poupar tempo, mas o estão perdendo

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PUBLICADO EM 23/05/18 - 03h00

Trier, localizada no extremo oeste da Alemanha, é considerada a cidade mais antiga daquele país. Foi fundada pelos romanos, nos tempos de Otávio Augusto, há mais de 2.000 anos. Daquela época ainda remanesce uma edificação, a Porta Nigra, o portentoso símbolo da cidade. Desde o último dia 5, porém, uma estátua de quatro metros de altura passa a rivalizar com o portal, como atração turística da cidade. Trata-se de uma estátua de Karl Marx, presente da República Popular da China à localidade, onde, há exatos 200 anos, nasceu o fundador do marxismo, que, aliás, pouco antes de morrer, disse não ser, ele próprio, “marxista”.

A inauguração do monumento provocou acirrada polêmica na Alemanha. O prefeito da cidade, do Partido Socialista da Alemanha (SPD), o mesmo que abandonou o marxismo como referência em 1959, justificou a iniciativa, dizendo ser incompreensível que a cidade natal de um dos maiores pensadores germânicos não o tivesse homenageado até então. Por outro lado, a Alternativa para a Alemanha, o novel partido que é considerado a extrema direita do “Bundestag”, organizou uma passeata, pedindo a derrubada da estátua. No mesmo momento, a poucas quadras dali, seu antípoda, A Esquerda, uma agremiação marxista, comemorava o bicentenário de nascimento do “Mouro”, como Marx era apelidado.

Como se vê, tinha razão Friedrich Engels, em sua oração fúnebre no cemitério de Highgate, em Londres, por ocasião do sepultamento do amigo de longa data, ao afirmar: “O seu nome continuará a viver pelos séculos, e a sua obra também”. O cardeal Reinhard Marx (que não é seu parente), presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, disse, há poucos dias, que o mundo vive um “renascimento de Marx” e que suas contribuições teóricas não podem ser ignoradas. Tal e qual o “Financial Times”, desde 2008.

Concorde-se ou não com suas teses, não se pode desconhecer sua genialidade ou desprezar seu conhecimento enciclopédico. Não por acaso, Marx gostava de repetir o poeta latino Terêncio: “Nada do que é humano me é indiferente”.

Como a Porta Nigra de Trier, Marx também ficou. Junto-me ao sociólogo Immanuel Wallerstein, da Universidade de Yale, em seu conselho às novas gerações: “A primeira coisa que tenho a dizer aos jovens é que eles precisam lê-lo. Não leiam sobre ele, leiam Marx. Poucas pessoas – em comparação com os muitos que falam sobre ele – leram Marx na realidade. Isso também é verdade para Adam Smith. Geralmente, as pessoas limitam-se a ler sobre esses clássicos. Aprendem sobre eles a partir dos resumos de outras pessoas. Querem poupar tempo, mas, na verdade, estão perdendo tempo! Devemos ler pessoas interessantes, e Marx é o acadêmico mais interessante dos séculos XIX e XX. Ele não tem igual em termos do número de assuntos sobre os quais escreveu, nem na qualidade da análise. Por isso, a minha mensagem para a nova geração é que vale muito a pena descobrir Marx, mas é preciso ler, ler, lê-lo. Leiam Karl Marx!”.

É o que sempre procurei fazer.

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