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Sandra Starling

Um atentado 'a mando de Deus'

Quem se deixa levar pela comoção dá com os burros n’água

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PUBLICADO EM 12/09/18 - 03h00

Seria irônico, se não fosse trágico, que um candidato que porta o nome “Messias” na certidão de nascimento tenha sido esfaqueado por alguém que diz ter agido “a mando de Deus”. É um absurdo o quanto Deus tem sido invocado como fonte de violência entre os homens! Por inspiração divina, em todo o mundo tem crescido o ódio, “um veneno - como já foi dito - que você toma aguardando que faça efeito no outro”. No Brasil, também. Infelizmente. O que ocorreu na rua Halfeld, em Juiz de Fora, na última sexta-feira, é efeito disso. O atentado trouxe-me a lembrança da tentativa de assassinato de George Wallace, governador do Alabama, na corrida presidencial de 1972, por um maluco, desejoso de notoriedade e inspirado por Deus. Wallace havia ficado mundialmente conhecido ao impedir que um rapaz e uma moça, ambos negros, frequentassem a Universidade do Alabama, em 1963. Foi preciso que o presidente John Kennedy enviasse tropas federais para que se cumprisse o mandado judicial que autorizava a matrícula e frequência às aulas, sem segregação, por aqueles dois - isso mesmo - estudantes afrodescendentes. As imagens de Wallace postado junto ao portão de entrada da universidade e sendo retirado pela Guarda Nacional são famosas. Na ocasião, disse: “O presidente quer que concedamos este Estado a Martin Luther King e seu grupo de pró-comunistas”.

Incluo-me entre aqueles que não querem a eleição do candidato vitimado em Juiz de Fora como presidente da República. Ele próprio já fez elogios públicos a agentes que eliminaram fisicamente adversários políticos. Mas homens e mulheres decentes não podem tolerar que se faça com ele aquilo que ele mesmo apregoa. Voltaire e Rosa Luxemburgo são para mim referências insubstituíveis: “Não concordo em nada com o que tu dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizeres o que pensas”, proclamou o ilustre pensador francês. “Liberdade é sempre liberdade para quem pensa diferente”, eram as palavras da revolucionária polonesa estampadas em cartazes na praça Celestial e nas ruas de Leipzig, nos idos de 1989. São guias a nortear os que entendem que a democracia não pode prescindir da liberdade. Os que pensam o contrário deveriam propor a dissolução do povo que protesta e a eleição, pelos governantes, de outro povo mais dócil, como ironicamente sugeriu o comunista Bertold Brecht, quando, em 1953, populares se insurgiram contra as autoridades da Alemanha Oriental, controlada pela União Soviética, e foram brutalmente reprimidos.

Torço para que o candidato do Partido Social Liberal viva e com saúde, por mais que sua peroração de violência incomode a mim e a tantos. Folga-me ver que seus adversários repudiaram aquele ato tresloucado e lhe desejaram pronta recuperação, embora o “Messias” seja parte do problema. Política se faz com convencimento, com diálogo e persuasão, não com exclusão. Quem se deixa levar apenas pela paixão ou, num nível mais intenso, pela comoção dá com os burros n’água. Mais cedo ou mais tarde.

Quando nos cansaremos de assistir a isso aqui e pelo mundo afora?

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