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Vittorio Medioli

A facada eleitoral

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PUBLICADO EM 09/09/18 - 04h30

As aparências podem levar a conclusões precipitadas. Nos casos mais famosos da história, acabou por se descobrir que a engendração levava em sentido oposto a um plano que precisava permanecer oculto. E agora? Pra que lado está a realidade?

De regra, os políticos suprimidos atentavam contra o status quo de grupos encastelados. Bolsonaro se encaixa nesse perfil. É uma figura fora do eixo das finanças e dos partidos tradicionais – grandes beneficiários do caos e dos exorbitantes lucros atuais.

O ex-militar caiu na mira de muitos desde o momento em que seu eleitorado cresceu, lotando ruas e praças aos gritos de “mito”. Marcou uma consolidação depois de uma performance surpreendente em recentes entrevistas (veja meu artigo da semana anterior).

Quando todos esperavam uma queda dele concomitantemente aos míseros sete segundos de tempo na propaganda eleitoral, subiu entre 2% e 4% e mostrou-se destinatário de parte do eleitorado de Lula, agora definitivamente excluído da disputa.

Bolsonaro deixa na incerteza bancos, empreiteiros e partidos. Chegou aonde está surpreendentemente, sem apoio da mídia, cética e descrente dele.

A história mostra conspirações tentando se esconder, seguindo o maquiavélico ditado: “Quando puder ganhar pelo engano, não use a força”. Não podemos excluir que um fanático, ex-filiado de um partido assumidamente radical, possa ter agido por motivação própria ou seja marionete de um manipulador ou de uma conspiração mais ampla.

No caso de Bolsonaro, o próprio governo anuncia: “Agiu sozinho, é um louco”. O governo sempre demora, esfria, porém uma sobrinha toma a cena confidenciando de imediato que Adélio Bispo há três anos não batia bem da cabeça. Hospedava-se numa pensão esquálida de Juiz de Fora, há dez dias, num quarto onde se encontraram mais dois celulares, um computador e uma agenda com anotações estranhas. A perícia nesses equipamentos poderá desvendar as ligações do esfaqueador.

As imagens feitas de celulares mostram figuras que aparentemente fariam chegar um embrulho, pouco antes da fatídica facada. Mostram ainda um sujeito aplicando um soco no abdome de Bolsonaro, que agravou propositadamente a lesão.

Certamente, uma faca afiada, que penetra com seus 20 cm de comprimento e 3 cm de largura o abdome do primeiro colocado na pesquisa presidencial, levanta suspeitas, faltando 30 dias para a eleição. O esclarecimento deve ser rápido e se antecipar à votação.

O que dá pra ver nas imagens é que havia outras pessoas na cena do atentado em atitudes estranhas. O “louco”, numa fração de segundo, com força, agilidade e precisão, acerta o abdômen do candidato. Parece uma ação treinada por alguém que tentava matar com um instrumento destinado a provocar o máximo estrago físico e grave hemorragia interna. Ele tenta evadir na confusão, mas a fuga foi mal calculada, apesar de ter sido muito rápido o recuo.

Desperta estranheza a rapidez com que as informações do currículo de Adélio se espalharam, de ex-filiado ao PSOL, no período de 2007 a 2014, e as declarações de uma sobrinha que definiu o tio como alguém com comportamento alterado e depressivo nos últimos três anos.

A motivação religiosa de um pertencente a um grupo de discurso anticristão também precisa ser medida corretamente.

O atentado se deu logo após a materialização das consequências de entrevistas televisivas (veja artigo anterior neste espaço), que lhe angariaram simpatias em redutos privativos da esquerda. Subiu entre 2% e 4% na semana que abriu a propaganda eleitoral gratuita, que lhe destina apenas sete segundos. Não resta dúvida de que a possibilidade de passar ao segundo turno se fortaleceu para ele, num momento de trégua de ataques que não se ajustam com vítimas de atentados. Mesmo quem o adotava como alvo preferencial teve que mudar de estratégia.

Mas Bolsonaro incomoda e assusta quem deteve o poder político e financeiro nas últimas décadas e que vê nele um perigo.

Se antes da facada contava com apenas sete segundos oficiais, depois passou a deter 24 horas de programação no papel de martirizado. Isso pode se refletir numa portentosa alavanca eleitoral.

Apesar de ter que ficar internado, sem condições de fazer campanha de rua por mais de um mês, tempo mínimo para a recuperação das lesões, ele permanecerá no centro dos noticiários como vítima. A facada o vacinou contra ataques por algum tempo. E ainda terá condições, mesmo em cadeira de rodas, de se apresentar aos últimos debates, se assim lhe for conveniente, e se aproveitar de uma circunstância extraordinária.

Enfim, encontra-se num momento excepcionalmente favorável, com uma passagem para o segundo turno e sem maiores desgastes no primeiro.

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