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Vittorio Medioli

Nas nuvens

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PUBLICADO EM 31/12/17 - 04h45

Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu uma estranha, recém-chegada a nossa cidade.

Depois que nasci, meu pai se deparou com essa singular personagem que tinha algo de milagroso em si. Ficou fascinado e, mesmo com a desconfiança de minha mãe, decidiu levá-la para morar conosco.

A estranha desde então encantou, com todos os seus aspectos ecléticos, a família toda, insinuando-se em nossa vida a cada dia mais intensamente.

Enquanto eu crescia, nunca questionava seu lugar em minha família; em meu modo de sentir, ela tinha um lugar muito especial e merecido.

Meus pais, depois dela, passaram a ser instrutores complementares... Minha mãe me ensinou o que era bom e o que era mau, e meu pai me ensinou a obedecer.

Mas a estranha era nossa narradora, aquela que lecionava, estimulava e se colocava num pedestal superior a todos.

Mantinha-nos enfeitiçados por horas contando aventuras, mistérios e casos ocorridos em lugares que nunca nos será dado conhecer.

Ela sempre tinha respostas certeiras para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência.

Parecia conhecer tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro!

Levou minha família a gostar do jogo de futebol, e de outros, e até então desconhecidas atividades. Ilhas paradisíacas em mares distantes.

Fazia-me rir e me fazia chorar e desejar.

A estranha, se alguém consentisse, nunca parava de falar, e meu pai não se importava.

Às vezes, minha mãe se levantava cedo e calada, enquanto o resto de nós ficava escutando o que ela tinha a dizer, mas só a mãe ia à cozinha para ter paz e tranquilidade.

Só agora me pergunto se ela teria rezado alguma vez para que a estranha fosse embora, desocupando a casa.

Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas a estranha nunca se sentia obrigada a honrá-las.

Obscenidades e palavrões, por exemplo, não eram consentidos em nossa casa… nem por parte nossa, nem de nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse.

Entretanto, nossa hóspede usava sem problemas sua linguagem iracunda e inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe ruborizar.

Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool ou fumar.

Mas a estranha nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente.

Fez com que o cigarro parecesse fresco, cativante e inofensivo e que os charutos e os cachimbos fossem sinais de distinção.

Falava livremente, talvez demasiado, sobre sexo, mesmo quando a ocasião era inoportuna e um visitante de respeito estivesse por perto.

Seus comentários, sem uma lógica sequencial, eram às vezes interessantes, outras sugestivos, ou apenas vergonhosos.

Agora sei que meus conceitos sobre relações humanas foram marcados e alguns esculpidos em mim, durante minha adolescência, pela estranha. Ela me levou precocemente a desenvolver instintos que meus pais queriam adiar.

Repetidas vezes a criticaram, mas ela nunca fez caso aos valores de meus pais. Mesmo assim, conseguiu permanecer em nosso lar, sem escutar as súplicas, mas alternando coisas boas e úteis com outras inconvenientes.

Passaram-se mais de 50 anos desde que a estranha se hospedou com nossa família e, envelhecendo, se renovou, sem nunca ter alguém capaz de empurrá-la para fora.

Mudou muito; já não é tão deslumbrante como era no princípio.

Não obstante, se hoje você pudesse entrar no âmago de meus pais, ainda a encontraria acomodada em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas e ser-lhe de companhia...

Seu nome? Não mudou.

A intrusa se chama ainda TELEVISÃO!

Agora ela tem um companheiro que se chama Computador.

Um filho que se chama Celular.

E um neto de nome Tablet.

A estranha agora montou uma família.

Nossas palavras ficaram raras, e nossas relações familiares ficaram mais distantes. Transformou nossa vida em algo virtual, abrigada nas nuvens que ninguém vê.

(Adaptação pessoal de um texto anônimo.)

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