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Vittorio Medioli

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PUBLICADO EM 08/04/18 - 04h00

“Sem desejos, se possui tudo”, ensinou o mestre Buda a seus discípulos. Felicidade é a ausência do querer. Mais que a realização do desejo, ao qual se sucede outra procura, a felicidade plena é a ausência do querer.

O índio sem contato com a civilização, em plena floresta, não conhece o automóvel e não se atormenta pela falta de um carro de luxo; não precisa enfrentar a ausência dele na frente de sua cabana sem garagem. Nunca se submeterá ao sacrifício de pagar uma prestação, o IPVA, de parar no meio do caminho para abastecer, de manter um seguro ou trocar pneu furado; continuará andando aonde seus pés o levam. Mas, para quem nasceu no meio da cidade, sofrer sua falta é a regra. Costuma-se desejar um, apenas um, em seguida vários e cada vez melhores. Para muitos, o modelo determina seu status, sua relevância. O “ter” acaba sendo mais importante que o “ser”.

O mundo é movido pelo alcance de algo que está fora do raio de manobra. Assim a uma conquista segue-se de imediato a procura de algo mais distante, maior, melhor, que precisará de novos sacrifícios, sofrimentos, penas que não compensam.

O viciado em bebida passa por uma fase em que precisa aumentar a cada dia as doses para chegar àquele torpor que inebria e falsifica a felicidade. Mas, para quem nunca experimentou um gole ou se abstém há muito tempo, meio copo altera as coordenadas todas e pode causar repulsa e mal-estar imediato.

A ingestão de bebida alcoólica, à luz meridiana, não acrescenta bem-estar, lucidez, não amplia o prazer dos sentidos, não enriquece material ou espiritualmente, deixa ressaca, dor de cabeça. Mas a maioria bebe, e muito. Quem está livre disso costuma se sentir feliz por não ter que ingerir o que o incomoda, e, livre da síndrome de abstinência, aproveita seu tempo. Economiza dinheiro, tempo, energia e, em especial, a saúde. De relance ganha mais alguns anos de existência.
O desejo não domesticado leva a sofrer.
Meras ilusões, sombras e reflexos que inutilizam a vida e abatem a saúde, ofuscando a meta de nossa caminhada.

A felicidade está mais no controle das emoções, em se livrar delas e, por incrível que pareça, até na superação do querer. O destino, nas escrituras budistas, levará o homem na espiral da evolução a participar do contínuo fluir do universo, em paz assentado na imensidão e dela sendo a realidade.

Pois é, difícil de assimilar, mas um dia muito distante, seguido de inúmeras reencarnações, encontraremos a paz nos livrando de corpos que envelhecem. Teremos que aprender a controlar sensações e paixões, a descobrir a unicidade da vida da qual participamos. Enfrentaremos as pedras do caminho, os espinhos, os obstáculos, as tristezas compensadas por curtas felicidades frutos de suor e lágrimas.

Deixaremos atrás as cinzas das paixões. Assim falou o Mestre.

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