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Vittorio Medioli

O terror dos entrevistadores

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PUBLICADO EM 02/09/18 - 04h30

No ensinamento das artes marciais, já na primeira aula o aluno aprende que deixar de prestar atenção à defesa é muito perigoso. Quando se decide atacar, esse esquecimento costuma ser fatal.

O entrevistado de quarta-feira pelo Jornal Nacional, Jair Bolsonaro, estudou numa escola superior de guerra, teve acesso ao que se precisa no enfrentamento e, bem por isso, nunca poderia ser subestimado.

Ainda mais depois da apresentação do início do mês passado na GloboNews, que deixou estonteados seus nove entrevistadores ao longo de duas horas e meia de sabatina, que respondeu como nunca se tinha visto numa rede de tamanha importância.

Desde Lao-Tze, três são os requisitos para a vitória, e o bom guerreiro, quando entende que lhe falta um desses, não se joga ao ataque.

Primeiro, conhecer o campo de batalha; segundo, conhecer bem o adversário; e terceiro, conhecer completamente a si próprio nos limites e fragilidades. A vitória será assim garantida.

O bom combatente pode se sujeitar a uma aparente derrota inicial, a um recuo, para confundir os planos do adversário e deixá-lo refém num campo que não lhe dá possibilidade de resistir.

Ousar, sem cálculo, contra um adversário desconhecido é confiar no azar. Subestimar o adversário deu no que deu com a apresentadora do JN, Renata Vasconcellos, na entrevista com o cadete das Agulhas Negras.

Na Itália se diz “sapato grosso, cérebro fino”. As botas de Bolsonaro confundiram a sutileza de seu plano e geraram o maior apuro de todos os tempos no templo mais temido do jornalismo nacional, que não costuma receber pedradas ao vivo.

Não serviu de alerta, nem foi levada a sério, a entrevista no canal GloboNews com o candidato do PSL. Repetiram-se, e com sucesso ainda maior, as perguntas e as respostas, com Bolsonaro se defendendo ao atacar os entrevistadores. Aplicou três seguidos golpes na entrevistadora e intimidou William Bonner, que não sabia para onde dirigir seu olhar.

Renata Vasconcellos não deve ter assistido à entrevista na GloboNews e partiu para cima. Cobrou, “indignada”, a paridade de salário entre homem e mulher, sobre a qual o presidenciável tem outra opinião, e recebeu a resposta de que há disparidade entre o salário dela e o de William Bonner.

Renata empalideceu e retrucou que isso não dizia a respeito ao entrevistado, já que ele recebe dinheiro público proveniente de contribuintes. Nessa, Bolsonaro disparou não haver diferença entre ele e Renata, já que a rede de televisão que a contrata recebe altas verbas do setor público, e nisso, portanto, se equiparam. Voltou com o tema homofobia, e dessa vez Bolsonaro abriu o livro, segundo ele, distribuído pelo MEC nas salas de aulas, com o qual discorda por ser endereçado a menores. Seguindo a trilha de sucesso anterior na Globo News, Renata relacionou Bolsonaro à ditadura, e ele, como já tinha respondido no começo do mês, declamou um editorial de Roberto Marinho, de 1964, que considerava o golpe militar “necessário”.

Pois é. Esse episódio, assistido ao vivo por 30 milhões de pessoas, em seguida reproduzido em milhões de postagens e compartilhamentos nas redes sociais, se concretiza até aqui como o grande fato dessa campanha presidencial, dando a Bolsonaro passaporte para o segundo turno.

Isso porque, num ambiente crivado de candidatos interpretando personagens, Bolsonaro se diferenciou como “novidade”. Sagaz e atento como a personagem mítica de Davi, que com uma pedra certeira derruba o gigante.

O jornalismo não pode ser alimentado de certezas e preconceitos, mas de análises e dúvidas, de olhares lançados de diferentes pontos contraditórios.

Tirar do conforto os políticos frente aos holofotes e microfones é mais do que justo, especialmente contrastando as platitudes e as formas rebuscadas de fugir de respostas precisas.

Bolsonaro, na descrença do “político tradicional”, mostrou contra-atacar sem medo e ter estudado detalhadamente as fraquezas do entrevistador, guardando no colete munições de sobra para colocar em apuros quem quer acuá-lo.

Nesse caso a entrevistadora subestimou amplamente o entrevistado, não teve o tempo ou o cuidado de analisar a mais recente entrevista de Bolsonaro, levantou-lhe a bola para gols de placa, emprestou-lhe um momento de “glória” frente a um universo de eleitores 30 vezes superior àquele da GloboNews.

Esse episódio se ergue na categoria dos “históricos”. Provavelmente consagra um Bolsonaro que não esperava tanto “apoio” para entrar no segundo turno, enquanto a outra vaga tem meia dúzia de aspirantes.

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