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Vittorio Medioli

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PUBLICADO EM 19/06/16 - 03h30

Passei uma semana nos lugares onde nasci e cresci. Dormi em camas antigas que me acolheram em meus primeiros dias de vida e nos gélidos invernos da década de 50. A primeira neve, as banheiras de carvalho, os sufocos de uma época que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Essa casa era de meu bisavô. Mesmos armários, mesmas paredes, nunca se renovou. Foi erguida entre 1906 e 1908 com pedras que foram trazidas de carroça do vizinho rio Taro.

Meu bisavô tinha uma frota movida por cavalos que atendia a coleta de trigo e a distribuição de farinha. Aproveitou-se dos retornos vazios para trazer pedras. Conseguiu, assim, transferir sua residência e a família toda do andar que ocupava acima dos escritórios e do forno de cozimento dos pães.

Em seguida, meu avô Francesco herdou a casa de Vincenzo por ser o mais velho dos oito filhos. Em 1947, por herança coube a meu pai, um dos seis filhos de Francesco com Maddalena Lualdi, uma linda jovem de uma tradicional família de Milão, tomar conta dessa casa. A avó “Lena” faleceu ali mesmo, em 15 de abril de 1910, ao dar à luz, com apenas 26 anos, sua sexta criatura, Olga Medioli, que dela herdou os traços.

Os retratos de meus antepassados ainda cobrem as paredes, algumas fotos ainda emolduradas por trancinhas dos cabelos das personagens, como era moda no início de 1900. Junto com a foto algo da avó ainda está ali. Peças delicadas e lembranças que desbotam como a memória das gerações que se seguiram.

Minha mãe, com 93 anos, mais lúcida do que eu, guarda centenas de histórias que com ela provavelmente se dissolverão. As imagens ficarão sem sentido, os nomes se confundirão, e naquelas paredes, invisíveis, permanecerão os sonhos e os fantasmas. Trajetórias que se escoaram e afundam, cada vez mais aceleradamente, às profundezas, como um Titanic rasgado.

Minha família sempre foi de “mugnai”, donos de moinhos de trigos desde, ou até antes, de um tal de Domenico Medioli. Os documentos estão guardados nos arquivos da “paróquia”, escritos em línguas que refletem a alternância de poder no “ducato” de Parma. Iniciaram-se no latim eclesiástico do Vaticano, passaram para o francês de Napoleão, que conquistou o “ducato” e deu de residência a sua esposa, Maria Luísa d’Áustria, sobrinha de Maria Antonieta, rainha da França. Perto dessa nossa casa, a duquesa construiu uma “Petit Versailles”, que usava de residência de verão, nos domínios do Ferlaro dos Príncipes Carrega.

Em Parma, Maria Luísa deu à luz o único filho de Napoleão, Romulo Bonaparte, nascido com o título de rei da Itália, falecido ainda imberbe ao ser exilado num lúgubre castelo da Áustria.

O tempo encobre com cortinas, sepulta o passado.

A 600 metros dessa casa, apareceram, numa escavação recente, restos de 5000 a.C. e uma estatueta de uma deusa que marcaria a primitiva religiosidade de um povo itálico ainda não identificado.

No cemitério da paróquia estão guardadas numa capela que meu bisavó construiu, há mais de cem anos, dezenas de descendentes e mais ainda nas capelas que se seguiram para abrigar proles que, nas últimas décadas, pararam de crescer em Parma e estão quase a se extinguir.

Minha mãe me pergunta: “Quem continuará a trocar as flores e limpar as capelas?”. Como se alguém debaixo das lápides de mármore de Carrara se importasse com isso. Num local onde jazem não só restos, mas as alegrias, os entusiasmos, e as decepções, confessadas ou não, se foram para sempre.

Depois do bisavô Vincenzo, que as minhas tias chamavam de “babbo grande”, a reconhecer-lhe a extraordinárias realizações, poucos da família foram aqueles que se jogaram em grandes desafios. Ele realizou e apanhou muito, e os sucessores preferiram vidas confortadas pela paz e pelo anonimato.

Confesso o nó na garganta que me aperta passando pelo local. Provavelmente minha presença sacode algumas dessas almas, ainda inquietas, quando leio seu nome e procuro nas imagens lapidares os traços que nos ligam: “... faça o que eu não fiz...”. Arrependimentos que não têm voz.

Meu bisavô Vincenzo foi uma figura corajosa. Em 1888, era dono de uma cadeia de sete moinhos tocados com pás movidas pela água do mesmo canal – construído em épocas imemoráveis. Certamente há mais de mil anos aproveita o declive entre os vales do rio Taro, onde toma as águas perenes, para chegar “exausto” ao córrego Parma, que atravessa a cidade emprestando-lhe o nome.

E foi aí, nesse canal, que ele decidiu montar uma usina hidrelétrica e introduzir na província de Parma a eletricidade que não existia. Jornais da época reportam a façanha e as viagens de charrete, no verão de 1888, de multidões ansiosas para ver as fantásticas lâmpadas iluminando a noite. E foi lá também que tocou o primeiro telefone da região.

A ele se deve a primeira indústria de extrato de tomate, que deu partida ao modo de concentrar e envasar esse fruto em larga escala, seguindo uma tradição daquela região. E Parma continua a ser polo de produção e o centro tecnológico mais avançado de conservação de alimentos.

No corredor da casa, no primeiro andar, tem uma foto de 1913, retrato de uma festa no pátio do moinho de Vicofertile; aparecem todos os filhos, netos e funcionários, alguns erguendo copos cheios de vinho, que rolou abundantemente numa tarde de festiva de verão. Nessa meu pai aparece franzino, com 5 anos de idade. Difícil seria, sem ajuda de minha mãe, identificar aqueles meninos. Faz tempo que não há mais sobreviventes, e algumas famílias se extinguiram. Apenas minha mãe é depositária em suas lembranças dos detalhes e das biografias de uma saga que sabe contar apenas em seus aspectos positivos, como é de costume, depois da morte, abonar todos os pecados e depurar biografias.

De cada vulto sabe o nome, o cônjuge, os filhos, as cidades ou países onde foram morar. Canadá, Chile, Estados Unidos, França, sem contar o Brasil que dela se gerou. Com satisfação recebe às vezes quem bate à porta, sem falar uma palavra do italiano, e se diz descendente de Vincenzo, quer ver onde ele viveu, tirar cópia de fotos e quadros da família.

A memória de Vincenzo ainda resistiu ao desgaste do tempo. Como diz seu nome, era um que, além de saber ousar, sabia “vencer”, com o mérito de deixar ensinamentos, que espero que possam seguir com meus netos.

 

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