Opinião

Escalar o Everest!

Atividades físicas e as frases motivacionais nas academias

Por Bárbara Molinari
Publicado em 17 de abril de 2024 | 07:00
 
 
 
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Recentemente fui fazer uma aula de ginástica que envolve esteira + musculação. Na parte da esteira, o professor falou que iríamos escalar o Everest… Oi? Detalhe: Eram sete da manhã! Amigo, se eu quisesse escalar o Everest, estaria no Nepal, não aqui! E ainda corria o risco de cair da esteira e virar uma avalanche bárbara!

Isso me fez pensar na profissão de educador físico. Será que eles aprendem como torturar os pobres alunos na faculdade? Ou já era algo que gostavam de fazer e só encontraram um meio legal de fazer isso? Isso porque ninguém normal – sim, normal – quer subir uma montanha na esteira! Ninguém deveria querer escalar uma montanha, ponto.
Essa aula só confirmou minha suspeita de que eu não quero ir fazer caminhada ou escalada rústica. Por favor, não insistam.

O personal trainer também deve sofrer de algum desvio de personalidade, porque não acredito que alguém consiga estar tão animado tão cedo. 

Se vou fazer ginástica cedo, tipo às 7h, literalmente estou semidesperta e com baba ainda colada na cara. Saí da cama e fui, quase de pijama as vezes. E lá está o ser, superanimado e tentando animar os alunos. Com gritos de encorajamento como: “Só mais uma”, “Você consegue”, “Tem que suar para vencer”, “A preguiça não pode ser mais forte do que a sua vontade de mudar” ou algo igualmente irritante. Às vezes, o ser ainda me arranja um apito para deixar tudo mais emocionante. 

Minha vontade é gritar ou enfiar o apito goela abaixo da criatura. Sério, essas frases motivacionais inspiram alguém a fazer qualquer coisa que não seja planejar uma morte lenta para aqueles que as proferem? De preferência, usando os pesos com que estamos nas mãos? Para a ironia ficar ainda melhor.

Se tudo isso é tão “ruim”, por que nos submetemos a isso? Por que vamos para a academia dia sim, dia não, ou todos os dias? As endorfinas são maravilhosas, suar nem tanto, mas cumpre o propósito. Mas será que não temos um viés masoquista pouco explorado? Ou então temos que pagar penitência para poder comer aquele docinho? Depois dessa frase já estou escutando todos os educadores físicos e nutricionistas que conheço dando chilique. 

Calma, eu sei que uma dieta saudável também é necessária. Mas nem só de sacrifício vive o homem! Poder meter o pé na jaca de vez em quando é bom para a nossa sanidade. A turma do whey protein todo dia e dieta à base de frango com batata-doce já desistiu dos pequenos prazeres: aquela coxinha com Catupiry ou aquele brigadeiro recheado.

Pode deixar, depois a gente paga suando na câmara de tortura, quero dizer, na academia.  Vamos combinar, esses doces “saudáveis” ou lights são como ir ao McDonald’s e pedir uma maçã: qual o propósito? Se for chutar o balde, chute direito. Mais Ronaldo Fenômeno e menos Roberto Baggio.

O pior é que fui condicionada desde a infância a fazer exercício físico, então sinto falta quando não estou mexendo meu esqueleto. Mas não posso reclamar, pois foi isso que me fez conseguir viver uma vida mais saudável e sobreviver às diferentes formas de tortura que o exercício físico pode nos proporcionar – menos corrida. Não consigo amar correr nem se Jesus decretar e não confio em quem ama essa coisa. Essas pessoas precisam de uma avaliação psiquiátrica o mais rápido possível!

Brincadeiras à parte, mexam-se! Nem que seja fazendo o combo caminhada + fofoca com um amigo. Nosso corpo foi literalmente feito pra isso. Necessitamos disso para termos uma vida longeva e saudável. Porém, podemos ficar sem escalar Everest e sem as frases motivacionais dos professores… Fica a dica!

Bárbara Molinari
Escritora com formação em relações internacionais e linguística

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