FÁTIMA OLIVEIRA

Desafios ambientais, médicos e psicossociais e a microcefalia 

O Aedes aegypti aqui aportou com os navios negreiros


Publicado em 15 de dezembro de 2015 | 04:00
 
 
 
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A cada publicação do Informe Epidemiológico sobre Microcefalia, do Ministério da Saúde (MS), quedo-me à impotência diante dos números. Os casos suspeitos só aumentam. Nem sequer temos a dimensão, nem como estimá-la, do que nos espera num país continental como o Brasil, onde a subnotificação é a regra!

“Até 5 de dezembro de 2015, foram registrados 1.761 casos suspeitos de microcefalia, em 422 municípios de 14 Estados. Foram notificados 19 óbitos de bebês com microcefalia e suspeita de infecção pelo zika vírus”.

O Brasil, para não variar, é retardatário: não deu conta do mosquito Aedes aegypti, que aqui aportou com os navios negreiros. Na década de 50, foi erradicado, mas retornou nos anos 80, com uma epidemia de dengue em Roraima; em 1986, no Rio de Janeiro e no Nordeste; em 1990, no Sudeste; e em 1998, uma pandemia, com mais de 500 mil casos!

Como não extirpamos os criatórios de Aedes aegypti, agora ele exibe todo o seu poder para além da dengue: zika e chikungunya. Todo mundo sabe que só se previnem tais doenças erradicando-se o mosquito! Sem choro e sem vela, é o dever de casa de todas as prefeituras do país! E ponto final!

O governo federal respondeu prontamente ao leite derramado, a epidemia do zika vírus: desde elaborar um protocolo emergencial de vigilância e resposta aos casos de microcefalia supostamente pela infecção do zika vírus, passando por definir Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional no país, até lançar, em 5 de dezembro, o Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia – mobilização nacional para conter novos casos relacionados ao zika vírus, que consta de três eixos de ação: mobilização e combate ao mosquito; atendimento às pessoas; e desenvolvimento tecnológico, educação e pesquisa.

Até 7 de dezembro passado, o MS incluía como suspeita de microcefalia o Perímetro Cefálico (PC) de 33 cm, quando adotou a medida padrão da OMS, que é de 32 cm. As diretrizes nacionais para a epidemia de microcefalia estão dadas, resta esperar o protagonismo dos governos locais (governadores e prefeitos).

Não será fácil. Não é impossível, mas complexo, concretizar as diretrizes do MS para as grávidas, a quem o ministério recomenda o uso de repelente e de calças compridas nas áreas de risco. Há discordâncias.

Thomaz Gollop, geneticista, especialista em medicina fetal, ginecologista e obstetra, diz que “especialistas em reprodução assistida estão recomendando adiar as transferências de embriões até abril para reduzir a possível exposição de fetos ao zika vírus!” E arremata: “O que você faria se a sua irmã ou filha planejasse hoje uma gravidez? Eu, certamente, diria: não engravide agora de jeito nenhum”.

Manda a prudência que as mulheres não engravidem agora, embora não saibamos exatamente se o zika vírus é o causador da microcefalia, pois ainda é uma hipótese a se confirmar! Mesmo assim, o tributo maior é das mulheres: o adiamento do desejo de engravidar e a imolação diante da microcefalia. Camilla Costa, em “Mães de bebês com microcefalia enfrentam distância, cansaço e maratona de exames”, exibe o impacto do caos da peregrinação, ainda inicial, em “lombo de vans” (BBC, 7.12.2015). Descentralizar o atendimento é indicativo número 1 de humanização da atenção!

Cinthya Leite, em “Mães de bebês com microcefalia precisam de apoio psicossocial” (“JC”, 5.12.2015), afirma, com o que concordo, que o Brasil tem de cuidar de quem nasceu com microcefalia, incluindo as mães, já que está escrito na pedra, infelizmente, que “Quem pariu Mateus que o embale!”.

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