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Para conceber a peça "A Alma Imoral", a atriz Clarice Niskier tornou-se uma faz tudo: foi ela que adaptou o livro homônimo de Nilton Bonder, além de atuar em cena e dirigir o espetáculo

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Clarice Niskier traz o monólogo “A Alma Imoral” de volta a Belo Horizonte
PUBLICADO EM 03/11/18 - 03h00

A semente que deu origem ao monólogo “A Alma Imoral”, adaptação do livro homônimo do rabino Nilton Bonder (ed. Rocco), que faz única apresentação em Belo Horizonte na próxima sexta (9), germinou antes mesmo que a atriz Clarice Niskier – que adaptou o texto, encena e dirige o espetáculo – tivesse contato com a obra. 

Foi num encontro entre ela e o rabino num programa de TV. Num debate, todos os convidados foram instados a dizer qual era sua religião, e Clarice se apresentou como “judia budista”. Minutos depois, a produção do programa recebeu um fax de uma espectadora dizendo que aquela definição não existia, que ou bem ela era judia ou budista. 

“Todos então entraram na polêmica sobre se era possível ou não a minha definição e o rabino saiu em minha defesa, acolhendo minha experiência, entendendo o que eu queria dizer”, lembra a atriz. “Fiquei muito admirada por sua postura e conversamos muito. Ele me deu o livro de presente e eu inclusive conto essa história na peça, para dizer como cheguei até ela. Brinco que é uma resposta à dona Lea, de quem eu não lembro o sobrenome, mas foi quem mandou aquele fax”.

O livro reconstrói os significados de “corpo” e “alma”, contrapondo o conceito de alma imoral do texto bíblico ao animal moral da psicologia evolucionista. “É um conteúdo de conhecimento judaico muito profundo, fala da sagrada desobediência, desse aspecto da nossa alma que é uma consciência anterior à razão. Uma dimensão muito profunda que existe em nós e tem um potencial transgressor muito grande e corajoso. É sobre isso a peça: certo e errado, obediência e desobediência, sobre a tradição e a ruptura”, pondera Clarice.

Para fazer a adaptação ela se debruçou sobre o livro durante um ano. Em seguida, por mais um ano, o apresentou em debates para diferentes grupos e recebeu feedbacks inclusive do próprio rabino Nilton Bonder. Durante esse processo, reencontrou o diretor Amir Haddad, com quem já havia trabalhado no fim da década de 1980, e que se predispôs a repetir com Clarice um modo de trabalhar que desenvolveu ao lado de outro parceiro, Pedro Cardoso. Em vez de dirigir, a supervisionaria, ou seja, ela conduziria a direção e ele semanalmente a encontraria nos ensaios para fazer ponderações. 

Em cartaz desde 2006, o espetáculo tem outra peculiaridade: vestida somente com um tecido preto que se molda de diferentes formas a seu corpo ao longo da performance – inclusive nenhuma –, a atriz apresenta o texto mas abre espaço para que a plateia contribua para a criação de sentido. “Em um dos debates, uma senhora me pediu para repetir um dos trechos e quando o fiz todos nós nos emocionamos. Decidi então combinar com cada plateia um momento para atender pedidos de repetição, afinal são muitos conceitos e ao repeti-los eles ‘entram’ melhor. Isso mantém o frescor da peça e intensifica a emoção”, explica.

Tendo atravessado momentos históricos diversos ao longo destes 12 anos, Clarice destaca a capacidade do espetáculo de provocar diferentes reações conforme o contexto mais amplo. “O mundo já esteve em expansão e agora se estreita, em crises, polaridades, violência. ) texto responde algumas questões sobre isso, como a tensão que existe quando há interesses muito divergentes, seja dentro de nós ou na sociedade. Mas fala também da capacidade do ser humano de suportar momentos duros sem deixar de marchar pra frente. Já atravessamos muitas dificuldades e sobrevivemos, portanto é totalmente possível sobrevivermos agora, mas é preciso sabedoria para fazê-lo da melhor forma e não a qualquer preço ou à custa de muito sangue”, conclui.

 

A Alma Imoral
Cine Theatro Brasil (av. Amazonas, 315, centro). Dia 9 (sexta), às 21h. R$ 50 (inteira)

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