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TEATRO

Nelson revisitado

“Boca de ouro” ganha versão do diretor Gabriel Villela, com Malvino Salvador à frente de grande elenco

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“Explosão Visual” Malvino Salvador em cena do espetáculo baseado na obra de Nelson Rodrigues
PUBLICADO EM 10/03/18 - 03h00
O acaso levou Malvino Salvador a protagonizar uma empreitada que, desde que chegou aos seus ouvidos, ainda em estágio embrionário, aguçou sua curiosidade: a montagem de um texto icônico do dramaturgo Nelson Rodrigues (1912–1980) – “Boca de Ouro” – sob a batuta do diretor mineiro Gabriel Villela. “A peça é um projeto do Claudio Fontana com o Villela e, de início, seria encenada com o Marcelo Antony. Mas quando a produção foi viabilizada, ele já estava com um trabalho engatado e, aí, o nome pensado foi o do Eriberto Leão, que é meu amigo e me falou (da empreitada). Cheguei a comentar que adoraria ter uma oportunidade dessas e, duas semanas depois, ele me liga dizendo que, por conta de outro compromisso, foi obrigado a desistir, e havia sugerido meu nome. Perguntou: ‘Quer evoluir nessa conversa?”.
 
O resultado é que a montagem, que estreou em São Paulo, em agosto do ano passado, vem colecionando elogios da crítica e indicações a prêmios, além da boa acolhida do público. Com essas credenciais, a montagem – que inclui, no elenco, Mel Lisboa, Claudio Fontana, Lavínia Pannunzio, Leonardo Ventura, Chico Carvalho, Cacá Toledo e Guilherme Bueno, Jonatan Harold e Mariana Elisabetsky – chega a Belo Horizonte para duas apresentações, no sábado (17) e no domingo (18).
 
Em cena, a história do temido bicheiro carioca que ganhou o apelido que batiza o texto por ter trocado os dentes naturais por outros de ouro. A misteriosa morte do contraventor é investigada pelo repórter Caveirinha (Chico Carvalho), que tem como principal fonte a ex-amante dele, Guigui (Lavínia). De início, ela execra Boca. Ao saber da morte, porém, passa a exaltá-lo para, num terceiro momento, voltar a criticá-lo, com medo da reação do marido, Agenor (Ventura). As três versões são contadas com a participação de Celeste (Mel Lisboa) e Leleco (Claudio Fontana), que têm relação direta com o crime.
 
“Já havia lido vários textos de Nelson Rodrigues e já assisti a várias montagens da obra dele, mas, coincidentemente, nunca de ‘Boca de Ouro’. Sabia a história, claro, mas não tinha lido. Quando entrei na empreitada, pensei: ‘Caramba, é um personagem que aparece em três versões, como construir isso? Foi o que mais me desafiou. Vi que tinha que colocar todas as minhas energias para construir algo pujante”.
 
A narrativa é pontuada por 14 músicas do cancioneiro brasileiro, como Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues e João Bosco. “A peça foi listada pelos principais críticos do país entre as melhores peças do ano, e vem tendo uma receptividade incrível. E quando isso acontece... Quando uma peça atinge este lugar, de agradar a crítica e, ao mesmo tempo, ser popular...”, orgulha-se.
 
Para Malvino, o pulo do gato reside no fato de ser uma montagem de comunicação rápida com a plateia. “Mesmo pessoas que não têm o hábito de ir ao teatro vão se divertir, entender. Os códigos narrativos do Nelson são muito populares, e o Gabriel soube aproveitar isso e fazer com que o resultado ficasse ainda mais interessante. A peça é uma explosão visual, um deslumbre musical, que pode levar o público a uma catarse coletiva por conta do todo. É uma concepção muito redonda, amparada em muitos acertos”, analisa ele, acrescentando que muito dessa somatória deve-se à fase que antecedeu a estreia. “Foram três meses ensaiando diariamente, eu viajando do Rio para São Paulo, (ficando) longe da minha família... Por isso, queria que (a carreira da peça) se perpetuasse por muito tempo, que pudesse adentrar outras praças no Brasil que não fossem só capitais, para ser vista pelo maior público possível. E, claro, gostaria de levar à minha cidade, Manaus”. Entre as praças já acertadas, está, por exemplo, Curitiba, quando estará na grade do Festival Internacional de Teatro.
 
Parceria
 
Trabalhar com Gabriel Villela, vale lembrar, foi decisivo para Malvino Salvador se juntar à montagem. “Saber que o maestro que conduziria tudo isso seria ele, um grande conhecedor de Nelson Rodrigues (Villela já montou “A Falecida” e “Vestido de Noiva”)... Villela é uma pessoa que leva para o teatro muitas referências do circo, do próprio teatro de rua, do Theatre du Soleil. Para essa concepção, pescou coisas do Kabuki... Pra mim, foi, e está sendo, um grande aprendizado. Nunca tinha tido oportunidade de entrar num universo tão particular, inclusive no teatro. Claro, fiz peças enriquecedoras na minha carreira, mas, agora, sinto que saltei outros degraus, como quando trabalhei com o Paulo de Moraes, da Armazém Companhia de Teatro”, compara.
 
A ambientação idealizada por Gabriel Villela (sim, ele assina também cenografia e figurinos) faz alusão a uma gafieira, com mesas e cadeiras, revezando-se entre uma redação de jornal e as casas dos personagens.
 
Nova novela
 
A partir do próximo dia 20, Malvino poderá ser visto pelo público apreciador de telenovelas em “Orgulho e Paixão”, nova novela das 18h. “Meu personagem, um coronel do exército (Brandão), é multifacetado, muito interessante. (O diretor treatral) Augusto Boal dizia que todo mundo é um ator na vida real, e ele é um pouco disso. Se encaixa num padrão conforme a necessidade. É uma novela de época, do início do século XX, mas as questões retratadas ali são parecidas com as atuais”.
 
Escrita por Marcos Bernstein, e inspirada no universo de Jane Austen, o folhetim programa situações nas quais Brandão acaba se tornando involuntariamente um herói por trás do disfarce que usa para participar de corridas clandestinas de motocicletas, o do Motoqueiro Vermelho, cuja identidade ninguém supõe. Apaixonado por Mariana (Chandelly Braz), ele pena com o fato de a moça achá-lo careta e desinteressante.
 
 
Boca de Ouro
Grande Teatro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537). Dias 17 (sábado), às 21h, e 18 (domingo), às 19h. A partir de R$ 50 (inteira)

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