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ARTES CÊNICAS

Viagem por drogas inusuais

Espetáculo da Cia. Livre apresenta “Dostoievski-Trip”, adaptação do livro homônimo do autor russo Vladimir Sorókin

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Dostoievski Trip ocupa o CCBB
PUBLICADO EM 09/06/18 - 03h00

As reações podem ser variadas, mas uma coisa o ator Edgar Castro afiança: não há espectador que passe incólume à experiência de assistir a “Dostoiévski-Trip”, montagem que, sob a direção de Cibele Forjaz, volta a reunir a Cia. Livre (da qual ele faz parte) e a Mundana Companhia, sete anos após a bem-sucedida experiência de “O Idiota – Uma Novela Teatral”, leitura da obra de Fiódor Dostoievski (1821- 1881).

Adaptação do livro homônimo do autor russo Vladimir Sorókin, 62, “Dostoievski-Trip” flagra, em seu início, um grupo de sete viciados que, em meio a um espaço indefinido, aguarda um traficante. “É um ponto de partida, digamos assim, divertido. Logo descobrimos que, na verdade, eles são viciados em literatura – inclusive, em vez das drogas conhecidas, sejam elas lícitas ou não, as substâncias têm nomes como Tolstói, Gorki ou Beauvoir. Algumas delas proporcionam boas viagens. Outras, nem tanto. De todo jeito, os personagens resolvem experimentar a nova droga, que se chama Dostoievski. E, por meio dela, embarcam em uma viagem que deflagra uma certa pulsão individual pelo poder. Por vários tipos de poder, pelo sexo, pela religiosidade...”, conta Edgar Castro.

Na visão do ator, o subtexto fala de “uma sociedade sedenta por experiências mais profundas”, em função do cansaço gerado pelo individualismo exacerbado que pauta os tempos atuais. “(A dramaturgia) fala da condição miserável em que o mundo ocidental se vê hoje, vítima de um consumo excessivo. Um consumo que prometia satisfazer as necessidades individuais mais profundas, o que a gente hoje sabe que é mentira”, adiciona.

No Brasil, “Dostoievski- Trip” foi traduzido pela ensaísta e tradutora Arlete Cavaliere, que foi quem sugeriu aos atores da Livre e da Mundana a encená-lo, após assistir à já citada versão de “O Idiota”, que, vale lembrar, integrou a edição 2012 do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua (FIT). Para quem não se lembra, a encenação tinha a duração de seis horas e meia, com dois intervalos. 

A empreitada atual desenrola-se no curso de 90 minutos, ainda que, como na montagem anterior, “Dostoievski-Trip” esteja longe de ser uma montagem convencional. “Desde a primeira leitura, a obra causou um impacto grande no grupo. Não é o podemos chamar de uma dramaturgia convencional. Inicia-se como uma fábula, mas, quando a nova droga passa a fazer efeito e os personagens começam a surtar, a estrutura dramatúrgica vai se decompondo”, aponta Edgard, lembrando que as nove semanas de ensaios foram “um desafio”. “Fizemos uma imersão profunda, inclusive indo a lugares como a Cracolândia e a Praça da Sé (SP). E queremos acreditar que, ao fim, conseguimos fazer uma leitura contemporânea do texto, inclusive com referências ao Brasil de hoje”, salienta.

Sim, Edgar diz que a diretora e elenco, dentro de uma prática já comum às duas companhias, resolveram inserir uma alusão à realidade brasileira, “muito clara na parte final, como se ela furasse a caixa cênica e invadisse o espaço”. O que, claro, reverbera no público. Para o bem e para o mal. “Tem quem se sinta atravessado pela experiência (de assistir ao espetáculo), inclusive porque ele tem uma voltagem física muito intensa. E, entre esses, há quem volte por não ter conseguido elaborar ao que assistiu num primeiro momento. E sim, há aqueles que não conseguem se conectar, talvez pela expectativa de uma experiência mais convencional. Mas, sem dúvida, a peça levanta discussões sobre a questão da arte, da sociedade... E da relação entre elas, e a gente espera que o público possa ir para dar a sua contribuição a esse debate. Uma coisa é certa, a reação do público nunca é de tédio. As pessoas saem muito mobilizadas”, assegura.

Dostoievski-Trip
CCBB BH (Praça da Liberdade, 450). Estreia neste sábado (9), às 20h. Sempre de sexta a segunda, às 20h. Sessões extras, às 17h, nos domingos 10/6, 24/6, 1/7 e 8/7, e no sábado 16/6. Em cartaz até 9/7. R$ 20 (inteira)

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