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Literatura

Religião e questões existenciais

Em novo livro, Leandro Garcia reúne as correspondências trocadas entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima

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Retrato. O escritor Mário de Andrade em tela produzida pelo pintor Lasar Segall
PUBLICADO EM 05/01/19 - 02h00

O crítico e escritor Alceu Amoroso Lima (1893-1983), mais conhecido pelo pseudônimo Tristão de Ataíde, deixou um acervo de 32.450 cartas, sendo esse número apenas de correspondências recebidas. Por meio delas é possível identificar a ampla rede de diálogos entre Lima e diversos autores brasileiros – entre eles, Mário de Andrade (1893-1945). Pesquisador do legado do crítico, o professor da UFMG, Leandro Garcia, reúne, pela primeira vez, as missivas trocadas entre os dois no livro “Correspondência: Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima”, que sai agora pela Edusp.

Os textos, concebidos entre 1925 e 1945, são apresentados na íntegra, o que é algo até então inédito, tendo em vista uma seleção predecessora, elaborada pela bibliotecária Lygia Fernandes, em 1971. Em “Mário de Andrade Escreve a Alceu, Meyer e Outros”, Lygia, segundo Garcia, trouxe algumas das cartas trocadas entre Lima e Andrade, mas trechos foram suprimidos a pedido do próprio crítico.

“Nos anos 70, muitas das pessoas citadas por Alceu nas cartas ainda eram vivas, e ele era amigo de todo mundo, além de ter convivido com toda aquela geração de escritores do modernismo. Então, Alceu não a deixou publicar tudo. Só agora nós temos acesso a essas cartas sem nenhum tipo de censura”, comenta Garcia.

Para organizar esse material, o professor dedicou-se durante três anos, mas sua relação com o arquivo de Lima é antiga e estende-se desde 2005. De lá para cá, ele já publicou outros volumes a partir das discussões travadas entre o crítico e outros nomes, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Frei Betto. O ponto de convergência entre todos eles, observa Garcia, é a questão da crítica literária, mas, com cada um, Lima também abordou temas diferentes.

“Frei Betto, na época, estava preso em razão da ditadura militar, e a correspondência entre os dois tem um caráter de denúncia. Frei Betto escrevia as cartas de dentro da cadeia, e parte desses textos Lima chegou a levar para a imprensa, com o objetivo de denunciar os casos de tortura, estupro e mortes de presos políticos”, informa Garcia.

No caso da relação dele com Mário de Andrade, as conversas giravam, principalmente, em torno da religiosidade, sendo o autor de “Macunaíma” bastante crítico do catolicismo de que Lima era adepto. “Mário foi católico praticante, mas se afastou da instituição sem conseguir, por outro lado, se livrar da fé. Enquanto vários escritores eram ateus bem-resolvidos, Mário não conseguiu ser. E, no fim da vida, ele tece muitas críticas ao catolicismo. E por que ele discute isso só com Alceu? Porque o crítico abria espaço para Mário tratar dessas questões. Alceu era conhecido por ser um dos principais intelectuais católicos do Brasil, e Mário enxergou nele uma oportunidade de diálogo”, completa Garcia.

O pesquisador também sublinha que esse conjunto de cartas pode ser dividido em dois principais momentos. O primeiro abarca as correspondências de 1925 a 1930, e nessas prevalece a crítica literária como principal tema. Já no segundo eixo, que vai de 1930 a 1940, é a religião que predomina, e, para Garcia, este grupo de correspondências traz uma contribuição, sobretudo biográfica, e são de grande importância para se compreender melhor a trajetória de Andrade.

“Há na biografia de Mário de Andrade um buraco no que toca à questão religiosa. As poucas biografias já publicadas sobre ele tratam desse aspecto e da homossexualidade dele – duas das questões mais complexas de sua vida – de maneira superficial. Então, esse livro agora vai ajudar a entender um pouco melhor como Mário lidava com a questão da religiosidade e como isso se relacionava com as suas questões existenciais”, atesta Garcia.

 

Trecho de carta de Mário de Andrade a Alceu Amoroso Lima

Eu não gostei deste seu livro, Tristão. Eu li ele com vontade de gostar, com esperança. Mas é um livro afirmativo, um livro para os que já tém fé e não carecem dele. Apostolado? Eu não posso discutir agora o seu livro, Tristão, me desculpe. Mas você não discute em público! Seu livro não é pros que estão do outro lado! Seu livro não é pra mim! E quando, depois de expor os mitos, V. me vem com aquele capítulo preliminar, dizendo que preliminarmente é preciso acreditar em Deus, sinão tudo o que V. vai dizer não pode ser aceito (não lembro bem como você diz, li o livro em abril), eu fico desesperado, com vontade de não acreditar em Deus. E é trágico, Tristão. É trágico menos por mim que Deus zurze incessantemente e maltrata com suas graças, e eu imagino que escolheu para que morra nele: é trágico mas para os sem-deus mas espíritos nobres, boa gentinha moça universitária, cheia da sensualidade de viver (sem Deus nem chateações), mas cheia da dignidade também, dignidade que lhe dá uma vaga derradeira esperança…

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