POLÍTICA MONETÁRIA

Dólar sobe e chega aos R$ 5,35, maior valor desde janeiro de 2023

Alta ocorre na esteira de uma possibilidade de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, que será definida pelo FED - Federal Reserve -, nesta semana


Publicado em 10 de junho de 2024 | 18:29 - Atualizado em 10 de junho de 2024 | 18:41
 
 
 

O dólar voltou a subir e atingiu a marca de R$ 5,356 nesta segunda-feira (10), numa alta de 0,57%, renovando mais uma vez seu maior valor desde janeiro de 2023, enquanto investidores aguardam novos dados de inflação dos Estados Unidos e a decisão sobre juros do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que serão divulgados nesta semana. Na máxima do dia, a divisa chegou a atingir R$ 5,388.

A expectativa é que o banco central americano mantenha as taxas inalteradas, mas há dúvidas sobre sinalizações da autoridade monetária sobre os próximos passos do juros americanos. Há temores, inclusive, de que não ocorra nenhuma redução nas taxas neste ano, o que tornaria o cenário ainda pior para os mercados globais.

Na Bolsa brasileira, o Ibovespa registrou alta durante boa parte do dia, mas fechou a sessão estável aos 120.759 pontos, segundo dados preliminares. O índice foi favorecido pela alta das commodities, mas o clima de cautela antes do Fed pesou contra os negócios.

Em Wall Street, os índices acionários abriram em queda, mas conseguiram se recuperar ao longo do dia. Os índices S&P 500 e Nasdaq registraram recordes de fechamento, com altas de 0,26% e 0,35%, respectivamente. Já o Dow Jones teve um avanço mais tímido, de 0,18%.

"Ruídos temporários foram responsáveis pela maior parte da performance negativa do real na semana passada. Embora acreditemos que haverá um alívio no curto prazo, o real pode continuar abaixo de seus pares depois da reunião do Fed", avalia Eduardo Moutinho, analista de mercados do Ebury Bank.

Os investidores estarão atentos nesta semana à divulgação de uma série de dados econômicos que devem moldar suas expectativas para o futuro das taxas de juros no Brasil e nos Estados Unidos.

Na quarta-feira (12), o Departamento de Trabalho dos EUA divulgará dados de preços ao consumidor, com expectativa de analistas consultados pela Bloomberg de desaceleração para alta de 0,1% em maio, ante 0,3% em abril.

No cenário nacional, o IBGE divulgará na terça (11) os dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) para maio. Analistas consultados pela Reuters esperam uma aceleração ligeira na base mensal, a 0,42%, ante 0,38% no mês anterior.

Investidores também acompanharam comentários do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em evento nesta manhã. Ele afirmou que a organização das contas públicas no Brasil é sempre um ponto de preocupação dos investidores, mas que esse não é um problema exclusivo do país.

"Nós vemos as políticas monetárias reagindo, mas ainda temos muita falta de política fiscal, e não estou falando aqui especificamente do Brasil, eu estou falando globalmente", disse.
Mais cedo, o BC divulgou seu boletim Focus, que reúne previsões de economistas para indicadores do Brasil.

Pela quinta semana consecutiva, a pesquisa mostrou alta nas projeções para a inflação neste ano, com aumento de 0,02 ponto percentual. As expectativas para a Selic (taxa básica de juros) foram mantidas em 10,25%.

Já há instituições, no entanto, realizando aumentos nas projeções para os juros. Nesta segunda, o Itaú revisou sua previsão para a Selic de 10,25% para 10,50% no fim de 2024, afirmando não ver mais espaço para reduções adicionais na taxa. No câmbio, o banco manteve inalterada a projeção de R$ 5,15 por dólar no fim deste ano.

"O dólar deve seguir forte nos mercados globais com crescimento robusto da economia americana. Internamente, o Banco Central deve manter a Selic em dois dígitos, mas as incertezas fiscais elevaram o prêmio de risco doméstico e o déficit em conta corrente, que aumentou consideravelmente nos últimos meses", dizem os analistas do Itaú BBA.

O cenário fiscal brasileiro, inclusive, segue no radar do mercado, após ruídos entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e agentes do mercado. Rumores sobre uma possível mudança no arcabouço fiscal, que passaram a circular após uma reunião de Haddad com integrantes do setor financeiro na sexta (7), causaram alta dos juros futuros e impactaram o mercado.

Participantes do encontro disseram a jornalistas que o ministro teria dito que iria mostrar ao Congresso não ser possível aumentar gasto sem fonte. Também que eventual contingenciamento de gastos dependeria do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e que o arcabouço fiscal poderia até ser mudado.

No final da tarde, após reportagens citando a reunião, Haddad se mostrou irritado e afirmou que houve uma quebra de protocolo, uma vez que a condição do encontro era que as pessoas não interpretassem o que ele falasse.

A confusão estressou ainda mais o mercado doméstico, num momento em que operadores já vinham apresentando ceticismo sobre o cumprimento das regras fiscais no país. "Um político com a experiência de Fernando Haddad parece ter deslizado nas palavras e dado margem à interpretação do setor privado. Mesmo buscando desmentir o ocorrido, é inegável que o ministro abriu novo flanco para a desconfiança do mercado financeiro acerca da viabilidade do novo arcabouço e, por consequência, da saúde das contas públicas do país", diz a equipe da Levante Investimentos.

As eleições do Parlamento Europeu também impactaram o mercado de câmbio. O avanço surpreendente da ultradireita na divisão de assentos do bloco causou volatilidade política, e a maioria das moedas de países emergentes registraram queda ante o dólar nesta segunda.

(Marcelo Azevedo/ Folhapress)

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