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Acílio Lara Resende

Está difícil prever os rumos do governo Bolsonaro

PUBLICADO EM 14/03/19 - 03h00

Morreu no último domingo, aos 90 anos, o jornalista Dídimo Paiva. Minha intenção era dizer algo sobre o profissional que conheci, sobre sua nobreza de caráter, mas, principalmente, sobre o corajoso defensor da liberdade de opinião. Depois que li o que disse o colunista Ariosto da Silveira aqui, em O TEMPO (“Dídimo Paiva, íntegro e integral”), desisti e me quedei no silêncio. Dizer o quê mais, além de concordar com cada palavra de Ariosto? Poderia, quem sabe, sugerir esta pergunta: que diria Dídimo sobre os rumos do governo Bolsonaro?

Não sei se Dídimo Paiva teria a mesma esperança que insisto em manter em meu país. Não sei se, como eu, também diria que a esperança é a última que morre. Sem ela, não somos ninguém. Aliás, talvez seja por isso que tenho procurado entender o mundo no qual vivo. Talvez seja por isso que tenho procurado entender o país no qual também vivo. Talvez seja por isso, enfim, que procuro entender o que de fato pensa o cidadão que hoje nos preside. Que tarefas difíceis, hein?! 

Está muito difícil prever para onde caminha Bolsonaro. Ficou difícil dizer o que pensa o presidente, eleito democraticamente, sobre política, liberdade, democracia, costumes etc. Ficou difícil saber o que pensam os filhos do presidente. Como o pai, os três são detentores do que se chama “múnus público”. Os quatro terão consciência disso? 

A maneira de reagir do presidente alcançou, agora, um limite perigoso. Depois do vídeo pornográfico postado no Twitter, como se ele fosse o retrato do país (quem mais seria capaz de exibi-lo?), o presidente afirmou, na sede da Marinha, no Rio de Janeiro, em discurso de improviso, que a democracia só existe porque as Forças Armadas querem. É evidente que os militares que estão no primeiro escalão do seu governo não concordam com isso. Eles sabem que a democracia existe porque o povo a quis. Eles sabem que as Forças Armadas fazem parte desse povo. Receberam dele o dever constitucional de defendê-la.

Desde sua posse, a cada três dias, o presidente critica ou questiona a imprensa. No domingo, finalmente, escreveu no Twitter: “Constança Rezende, de ‘O Estado de S. Paulo’, diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otávio, profissional de ‘O Globo’. Querem derrubar o governo com chantagens, desinformação e vazamentos”.

Verificou-se, a seguir, que a jornalista não falou em arruinar nem o governo, nem o presidente, nem qualquer dos seus filhos. O texto foi retirado do site francês Mediapart. Mais à frente, a correção: “As informações que serviram de base para o tuíte de Jair Bolsonaro são falsas”. Obviamente, o caso também ganhou repercussão internacional.

Para onde, então, caminha o presidente Bolsonaro?
Para negar o que falou sobre liberdade de imprensa?

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