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Cândido Henrique

Futebol e o dilema do homem: ser justo

VAR Independência
Foto: Fred Magno
PUBLICADO EM 21/04/19 - 03h00

“A justiça não existe. Ela só existirá se a fizermos, eis o problema humano”. Essas frases são de Alain, pseudônimo do ensaísta, jornalista e filósofo francês Émile-Auguste Chartier (1868 – 1951), e foram lembradas por André Comte-Sponville em seu “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, livro de 1999.

Bem, saímos de uma final de Campeonato Mineiro em que essas máximas foram escancaradas. O VAR não foi justo, pendendo para um lado. O problema é da tecnologia? Não. O problema é de quem a opera. O VAR é dirigido por homens – e aí está a grande questão.

Buscar a justiça deve ser uma incessante luta interna, mesmo sabendo que você nunca irá alcançá-la. Os mais apocalípticos pensam assim. Quem acalenta mais esperança, no entanto, sabe que ser justo é muito difícil.

Isso porque as leis, tanto as dos homens quanto as do futebol, são interpretativas. E é possível ser duro ou brando com o mesmo texto final. A justiça, portanto, nunca chegará a um ponto comum, apesar de sua busca.

Quando a Fifa anunciou o uso do árbitro de vídeo, o VAR, não foram poucos os que comemoraram. Na Copa do Mundo, ela chegou a ser questionada, mas, ao fim, foi aprovada. Na última semana, nos programas esportivos, vimos duas alas em cena: a dos defensores e a dos que acreditam que o VAR não traz ganhos.

Pela final do Campeonato Mineiro, podemos dizer que, de fato, não trouxe ganho. Não redimiu a polêmica e nem mesmo trouxe certeza para o jogo. A essência da arbitragem está mantida: a da interpretação.

O VAR não elimina a interpretação do árbitro. Na verdade, ele dá mais elementos para as decisões dele. E mais do que isso: o árbitro de vídeo não traz consigo um código de conduta do juiz. Isso está dentro dele. Logo, se houver má intenção, ela vai aparecer com ou sem a ajuda da tecnologia.

No ano passado, o Cruzeiro sofreu com isso, quando Dedé foi expulso na partida contra o Boca Juniors. Um minuto antes de Dedé subir na área com todo seu impulso e o goleiro Andrada se antecipar, tirar a bola, mas receber uma cabeçada que quebrou seu maxilar, o árbitro paraguaio Eber Aquino tinha uma atuação exemplar. Não havia se metido em confusão e daria sequência ao jogo tranquilamente.

O pesadelo do Cruzeiro – e também do árbitro paraguaio – começou quando foi acionado o árbitro de vídeo.

Antes de ir para o cantinho da TV, ele foi comunicado que o lance merecia uma nova interpretação. Aquino, ali, já fora induzido a algo alarmante.

O mesmo aconteceu no clássico de ontem à tarde. A insegurança do árbitro era evidente. Todo lance, ele colocava a mão no ouvido. Os mais divertidos poderiam até especular que ele estava sentindo dores de ouvido. No entanto, a certeza, tão importante na decisão, acabou com o VAR.

Há medo de errar. Muito medo. O VAR, definitivamente, não trouxe tranquilidade ao árbitro. Ele traz mais pressão. E, na pressão, o erros humanos aparecem. A certeza que fica após o clássico é que a tecnologia dificilmente servirá para salvar o ser humano de seu dilema eterno: o de ser justo.

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