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Fernando Fabbrini

Pena do meu Brasil

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“Aliás, como sabemos, os canários têm um valor inestimável para o país. A seleção de futebol, por exemplo, é conhecida como a ‘seleção canarinho’, por causa da cor” | Foto: Hélvio
PUBLICADO EM 13/06/19 - 03h00

—Tragam o acusado – disse o juiz.

O homem assentou-se. Exibia um ar arrogante, cara fechada, nariz em pé.

— O cidadão está sendo acusado de liderar uma quadrilha de roubo de galinhas. Tem algo a declarar?

— Eu, doutor? –– o acusado arregalou os olhos e levou as mãos ao peito.

— Sim, o senhor mesmo. É o chefe da turma, não é? Vários coleguinhas seus já cantaram bonitinho, igual canário.

— Excelência, juro que jamais roubei canários em toda a minha vida. Estou estarrecido com esta acusação.

— Estou falando de galinhas, frangos, entendeu? Aves domésticas que botam ovos.

— Bem, são espécies semelhantes. Galinhas e canários têm penas, bicos... Aliás, como sabemos, os canários têm um valor inestimável para o país. A seleção de futebol, por exemplo, é conhecida como a ‘seleção canarinho’, por causa da cor....

O juiz interrompeu-o, impaciente:

— Enrola, não. Seus amiguinhos transportavam as galinhas para outros galinheiros, bem longe daqui. Suíça, paraísos fiscais... Estão todas lá, bem guardadinhas, botando ovos de ouro para sua turma...

— Mas... isso é inadmissível! Merece uma investigação rigorosíssima, doa a quem doer!

O juiz achou graça:

— Já estamos investigando, somos a Justiça. O senhor é o acusado, fique na sua. Vamos lá, responda: quem são os chefões? Os mandantes? O esquema?

— Qual esquema? Roubar galinhas é uma atividade milenar, um costume tradicional de muitos povos. O furto de galinhas fazia parte do calendário das festas da Roma Antiga. No tempo dos vikings, as aves eram sacrificadas em rituais pagãos destinados a aplacar a ira de Odin...

— Estou falando de Brasil! De hoje! De agora, dessa roubalheira que vocês arrumaram! ...

O acusado abriu os braços.

— Repudio veementemente essas acusações infundadas. Estou absolutamente à disposição das autoridades desde o início.

— Rapaz... já tô perdendo a paciência!

— Mas, doutor! Eu sempre achei o roubo de galinhas uma coisa repugnante, um crime inominável! As galinhas fazem parte de uma minoria injustiçada pelas elites ao longo dos tempos. Tanto que acabo de pedir rigorosas medidas de proteção dos galinheiros; entidades galináceas não governamentais já se manifestaram em apoio...

— O quê? Você é o ladrão, rapaz! Que história é essa?

O acusado mudou o tom de voz:

— “Que história é essa”, pergunto eu. Percebo que o senhor está dando uma atenção exagerada ao assunto. Qual é o seu interesse nisso?

— É meu trabalho, estou cumprindo a lei! Roubou galinha, vai em cana!

— Muito estranho... Por acaso o meritíssimo faz parte do lobby avícola imperialista? Representa interesses escusos de grupos dos bastidores, não é isso? Responda!

O juiz ergueu-se, enfurecido:

— E desde quando você me dá ordens, seu canalha?

Foi nesse instante que ouviram o barulho de vidros quebrados, gritaria, confusão. Um policial entrou na sala, esbaforido:

— Doutor, os companheiros do acusado estão invadindo a audiência!

— Parem, em nome da lei! – gritou o juiz, enquanto procurava o telefone.

Mas era tarde. O acusado já lhe apontava uma pistola, mirando na cabeça.

— Mãos pra cima! Agora a lei é outra. O meritíssimo tá preso.

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