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Flávio Saliba

A crise de moradias e o 'Nine Eleven' paulistano

PUBLICADO EM 11/05/18 - 03h00

O recente incêndio e desmoronamento do prédio de 26 andares em São Paulo em nada fica a dever ao “Nine Eleven”, como ficou conhecido o ataque às torres gêmeas de Nova York, em 2001. Na verdade, trata-se de algo pior, e, aqui, não se deve levar em conta o número de mortos, mas as causas do desastre. 

Se lá foi fruto de um ataque terrorista perpetrado por fanáticos religiosos, aqui foi fruto de um terrorismo silencioso, sem uso de explosivos, que revela a podridão da vida nacional encenada pelo Estado, pela obscena carência de moradias populares, pela especulação imobiliária e pela ação de malfeitores e grupos político-ideológicos. 

Sabe-se que o prédio incendiado foi transferido ao governo federal como pagamento de dívidas não saldadas por uma empresa privada e que ali foram instalados, durante alguns anos, pelo menos dois órgãos públicos federais. Permanecem, no entanto, obscuras as condições em que o prédio foi repassado ao poder público, as razões pelas quais aquelas agências deixaram o local e por que, uma vez transferido à prefeitura da cidade, o prédio – que, segundo consta, apresentava inclinação de aproximadamente um metro – foi abandonado e, finalmente, ocupado por famílias sem-teto. 

Mas como, no Brasil, o que é público não é de ninguém, não há razão para que os governos, em todos os níveis, se preocupem com a preservação do patrimônio e a fiscalização das condições de segurança e salubridade de um imóvel ocupado por centenas de cidadãos pobres. Mesmo porque alguns espertalhões já se tornaram os “donos” do pedaço, e o poder público, amedrontado, nem sequer ousa vistoriar esse ou outro prédio.

Impressionam o observador as condições externas e internas de alguns dos mais de cem imóveis invadidos que a mídia diz existirem no centro de São Paulo: fachadas cobertas por pichações – ao que se sabe, com mensagens cifradas de gangues –, elevadores que não funcionam, falta de água, instalações elétricas improvisadas, materiais inflamáveis, além de lixo, muito lixo. 

Compreende-se que sejam assim naquelas ocupações administradas por bandidos, mas não naquelas lideradas por movimentos sociais organizados. Se a luta é por moradia digna, como afirmam, as condições de higiene e o suporte regular às famílias ali instaladas seriam indispensáveis. Mas isso é trabalho duro demais para os idealizadores das invasões, os urbanistas e assistentes sociais formados, não para pôr a mão na massa, mas para a indignação e o proselitismo político. As histórias que emergem das investigações policiais, de depoimentos de moradores e de observadores do movimento dos sem-teto dão conta de casos escabrosos, de negociações envolvendo proprietários de imóveis abandonados, ONGs, partilhas irregulares de verbas públicas e interesses políticos em meio a entraves burocráticos de toda ordem. 

Pelo visto, a “solução” do problema das moradias populares nas grandes cidades brasileiras continuarão sendo – até quando, não se sabe – as favelas e a invasão de imóveis abandonados. 

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