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Flávio Saliba

Capitalismo periférico, pobreza e criminalidade

PUBLICADO EM 08/06/18 - 03h00

A persistência das desigualdades sociais, da pobreza e das elevadas taxas criminalidade no Brasil, além de causas estruturais, têm a ver com a persistência de políticas sociais equivocadas. Estas tendem a refletir convicções político-religiosas insustentáveis. 

Data dos anos 50 do século passado a teoria sociológica da “urban underclass”, ignorada pelos estudiosos da pobreza brasileira, que preferem denunciar o capitalismo e o egoísmo das elites. Entre os pressupostos dessa teoria distinguem-se a afirmação de que a pobreza urbana seria constituída por indivíduos e famílias que permanecem pobres por longos períodos e que tendem a transmitir sua pobreza a seus descendentes. Concentrados em vizinhanças pobres e degradadas, tais indivíduos e famílias teriam fraca ligação com a força de trabalho e estariam sujeitos à geração de filhos na adolescência e fora do casamento, à dependência da assistência pública, ao uso de drogas e ao comportamento criminoso habitual. 

No caso brasileiro, creio ser desnecessário acrescentar que a grande maioria dos pobres não apresenta esse perfil, embora se veja forçada a conviver em vizinhanças onde são comuns tais comportamentos. Por sua vez, muitas pessoas engajadas em atividades típicas da “underclass” (por exemplo, a criminalidade) estão longe de serem pobres. O fato é que, à falta de oportunidades e de incentivo ao trabalho regular, e à falta de uma ordem moral que defina “o que é correto fazer e o que é razoável se esperar”, a cultura do gueto tende a se difundir numa vasta parcela do tecido social. 

Há, no Brasil, uma resistência dos estudiosos da pobreza e da criminalidade em admitir que nossa interminável transição de uma sociedade tradicional à “modernidade periférica” é, senão o único, pelo menos o mais importante fator que, associado à privação econômica, promove a instabilidade dos laços familiares, o recrutamento de jovens para o consumo e tráfico de drogas e o aumento da violência no país. 

Se o jovem do sexo masculino procura nas gangues o apoio que não obteve na família, aquelas lhe impõem, em troca, certos comportamentos: as conquistas sexuais, por exemplo, parecem ser uma das formas de afirmação perante os pares. Como “manifestação da pobreza persistente, para muitas moças a maternidade acidental ou não torna-se um rito de passagem para a vida adulta”. 

Em antiga pesquisa por mim realizada, foi possível constatar que famílias chefiadas por viúvas, mulheres separadas e mães solteiras somam cerca de 50% do total de famílias com renda inferior a dois salários mínimos, levando-as a enfrentar condições particularmente adversas de sobrevivência e, consequentemente, a maiores dificuldades de superação da própria pobreza. Entre as famílias com rendas superiores, o percentual de famílias chefiadas por mulheres cai vertiginosamente para 24% entre aquelas com renda entre dois e cinco salários mínimos e para meros 19% entre as famílias mais abastadas, isto é, com renda superior a cinco salários mínimos. 

 

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